Florestan Fernandes: vida e sociologia

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Florestan Fernandes nasceu em São Paulo, a 22 de Julho de 1920. Começou a trabalhar muito cedo, ainda criança, aos seis anos de idade. Em conseqüência disso não concluiu o curso primário, formando-se mais tarde no Curso de Madureza, uma espécie de supletivo. Em 1941, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, graduando-se mais tarde, em Ciências Sociais.

Carreira

Obteve o título de Mestre em 1947, ao dissertar sobre A Organização Social dos Tupinambás. E no início da década de 50, defendeu sua tese de doutorado, A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá. Atuou como assistente catedrático, livre docente e professor titular na cadeira de Sociologia I, sendo efetivado na cátedra no ano de 1964, com a tese A Integração do Negro na Sociedade de Classes.

Florestan sempre defendeu a escola pública, estando sempre ligado a movimentos sociais e a organizações políticas esquerdistas, tendo sido preso duas vezes em conseqüência disso. Teve que deixar o país em 1969, devido ao AI-5 (Ato Institucional nº 5) da Ditadura Militar.

No exterior, lecionou em universidades renomadas como as universidades de Columbia e Yale (EUA) e a Universidade de Toronto (Canadá). Voltou ao Brasil em 1972, para pouco tempo depois, no ano de 1978, ser efetivado como professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/PUC-SP. Colaborou com o jornal A Folha de S. Paulo desde os anos 40, em 1989 ganhou uma coluna semanal no mesmo.

Atuação Política

Também figurou no cenário político do país, exercendo dois mandatos de Deputado Federal (1987-1990 e 1991-1994) pelo PT (Partido dos Trabalhadores). Como político, continuou a defender a escola pública e a educação em geral, destacando-se o projeto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB.

Principais obras e Contribuições

Florestan Fernandes é considerado o criador da sociologia crítica no Brasil. Possui mais de 50 obras publicadas, dentre elas podemos citar:

– A Organização Social dos Tupinambás (1949)
– A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá (1952)
– Método de Interpretação Funcionalista na Sociologia (1953)

O sociólogo, com seu estilo de pensamento analítico e crítico, reinventou a pesquisa sociológica no país. Pode-se dizer que o que Florestan fez foi transformar a maneira de se realizar a investigação sociológica.
Faleceu a 10 de agosto de 1995, em São Paulo.

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A sociologia de Florestan Fernandes*

A sociologia de Florestan Fernandes inaugura uma nova época na história da sociologia brasileira. Não só descortina novos horizontes para a reflexão teórica e a interpretação da realidade social, como permite reler criticamente muito do que tem sido a sociologia brasileira passada e recente. Permite reler criticamente algumas teses de Silvio Romero, Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freire e alguns outros. Simultaneamente, retoma e desenvolve teses esboçadas por Euclides da Cunha, Manoel Bonfim, Caio Prado Júnior e outros. A partir desse diálogo, a sociologia de Florestan Fernandes inaugura uma nova interpretação do Brasil, um novo estilo de pensar o passado e o presente.

Em uma formulação muito breve, pode-se afirmar que a interpretação do Brasil apresentada por Florestan Fernandes revela a formação, os desenvolvimentos, as lutas e as perspectivas do povo brasileiro. Um povo formado por populações indígenas, conquistadores portugueses, africanos trazidos como escravos, imigrantes europeus, árabes e asiáticos incorporados como trabalhadores livres. Mas essa é uma história baseada no escambo e na escravidão, no colonialismo e no imperialismo, na urbanização e na industrialização, por meio da qual se dá, inicialmente, a formação da sociedade de castas e, posteriormente, da sociedade de classes. Uma história atravessada por lutas sociais da maior importância, desde as revoltas de comunidades indígenas contra os colonizadores até as lutas contra o regime de trabalho escravo. História essa que, no século XX, se desenvolve com as lutas de trabalhadores do campo e da cidade, pela conquista de direitos sociais ou pela transformação das estruturas sociais. Uma parte importante dessa contribuição se encontra em livros como estes: A organização social dos Tupinambá; A integração do negro na sociedade de classes; O negro no mundo dos brancos; Mudanças sociais no Brasil; e A revolução burguesa no Brasil.

No âmbito da teoria sociológica, Florestan Fernandes realizou uma obra fundamental. Dialogou com as principais correntes de pensamento do passado e presente, desde Spencer, Comte, Marx, Durkheim e Weber até Mannheim, Parsons, Merton e Marcuse, entre outros. Além de realizar um balanço crítico de diferentes contribuições teóricas de uns e outros, formulou contribuições originais, abrindo novas possibilidades de reflexão. Há uma sociologia crítica muito desenvolvida nos escritos de Florestan Fernandes, dentre os quais sobressaem: Fundamentos empíricos da explicação sociológica; Ensaios de sociologia geral e aplicada; e A natureza sociológica, entre outros.

Uma parte importante da sociologia de Florestan Fernandes se concentra na pesquisa e interpretação das condições e possibilidades de transformações sociais. A revolução social é um de seus temas mais freqüentes. Está presente em boa parte dos seus escritos, umas vezes como desafio teórico e outras como perspectiva prática. Estes são alguns dos seus livros relacionados mais diretamente com esse tema: A sociologia numa era de revolução social; A revolução burguesa no Brasil; Da guerrilha ao socialismo; e A revolução em Cuba.

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São vários e fundamentais os problemas teóricos e históricos compreendidos pela obra de Florestan Fernandes. Entram aí também problemas relativos à educação popular e às responsabilidades do cientista social. No conjunto, uma obra extensa e múltipla. Assinala o início de uma nova época na história da sociologia brasileira. Inaugura um novo estilo de pensamento sobre as configurações e os movimentos da sociedade. Permite conhecer o presente, repensar o passado e imaginar o futuro.

Florestan Fernandes é o fundador da sociologia crítica no Brasil. Toda sua produção intelectual está impregnada de um estilo de reflexão que questiona a realidade social e o pensamento. As suas contribuições sobre as relações raciais entre negros e brancos, por exemplo, estão atravessadas pelo empenho de interrogar a dinâmica da realidade social, desvendar as tendências desta e ao mesmo tempo discutir as interpretações prevalecentes. No mesmo sentido, as duas reflexões sobre os problemas da indução na sociologia avaliam cada uma e todas as teorias, os métodos e as técnicas de pesquisa e explicação, da mesma maneira que oferecem novas contribuições para o conhecimento das condições lógicas e históricas de reconstrução da realidade. Essa perspectiva está presente nas monografias e nos ensaios sobre o problema indígena, escravatura e abolição, educação e sociedade, folclore e cultura, revolução burguesa, revolução socialista e outros temas da história brasileira e latino-americana. O mesmo se pode dizer dos seus trabalhos sobre teoria sociológica. A perspectiva crítica está presente em toda a sua produção intelectual, incluindo obviamente o ensino, a conferência, o debate público. Questiona o real e o pensado, tanto os pontos de vista dos membros dos grupos e classes compreendidos na pesquisa como as interpretações elaboradas sobre eles. Assim, alcança sempre algo novo, outro patamar, outro horizonte. Vai além do que está dado como estabelecido, explicado. Ao submeter o real e o pensado à reflexão crítica, descortina as diversidades, desigualdades e antagonismos, apanhando as diferentes perspectivas dos grupos e classes compreendidos pela situação. Nesse percurso, resgata o movimento do real e do pensado a partir dos grupos e classes que compõem a maioria do povo. São índios, negros, imigrantes, escravos e livres, trabalhadores da cidade e do campo que reaparecem no movimento da história. As mais notáveis propostas teóricas da sociologia são avaliadas, questionadas e recriadas, tendo em conta a compreensão das suas contribuições para apanhar os andamentos da realidade social.

A sociologia lida com as relações, os processos e as estruturas sociais. Um tema particularmente importante da reflexão sociológica é a interação social, momento primordial na gênese e reiteração do social. Todo fato social se caracteriza por ser um nexo de relações sociais. São as relações, se desdobrando em processos e estruturas, que engendram a especificidade do social. O homem se constitui como ser social no mesmo processo por meio do qual se constitui a sociabilidade. “A interação social constitui o fenômeno básico da investigação sociológica.” Ocorre que “existir socialmente sempre significa, de um modo ou de outro, compartilhar de condições e situações, desenvolver atividades e reações, praticar ações e relações que são interdependentes e se influenciam reciprocamente. Nesse sentido, a interação social é, essencialmente, uma realidade dinâmica”. Compreende “diferentes probabilidades dinâmicas de interdependência, dos indivíduos entre si, de suas atividades, reações e relações sociais, ou das categorias e agrupamentos de que fazem parte”. Assim, as partes e o todo se constituem reciprocamente e se modificam, no mesmo processo em que se formam. “Da mesma maneira que à sociedade produz ela própria o homem como homem, ela é produzida por ele” (Marx). Ou seja, “sociedade e indivíduos não denotam fenômenos separáveis, mas são simplesmente os aspectos coletivo e distributivo da mesma coisa” (Cooley). A mesma teia de relações sociais constitui as condições de persistência e transformação da realidade social (Fernandes, 1970, pp. 75 e 78-9).

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Na obra de Florestan Fernandes se encontra uma contribuição básica para a teoria sociológica: retira e desenvolve o conteúdo crítico da sociologia clássica e moderna. Foram as próprias condições sociais nas quais emergiram as ciências sociais que as levaram a defrontar diversidades, desigualdades e antagonismos. A sociologia “se viu confrontada com as contradições da sociedade de classes em expansão”. Para estar em condições de “apanhar tais contradições em suas condições, causas e efeitos, precisou adaptar suas técnicas de observação, de análise e de explicação a um padrão de objetividade que incorporasse a negação” (idem, 1980, p. 112) da ordem social. As possibilidades de reflexão crítica abertas por Comte, Spencer, Durkheim, Weber, Sombart, Tônnies, Mannheim, Merton e outros – possibilidades às vezes moderadas – são levadas adiante nos escritos teóricos e históricos de Florestan Fernandes. A perspectiva oferecida por uma sociedade como a brasileira, com acentuadas desigualdades sociais, econômicas, políticas e culturais, permite questionar muito da sociologia clássica e moderna e resgatar os seus conteúdos críticos. Assim se recriam temas è conceitos que pareciam pretéritos. As noções de interação, organização, sistema e mudança, entre outras, se apresentam como possibilidades de pesquisar e explicar a anatomia das relações, processos e estruturas de dominação política e apropriação econômica que articulam as desigualdades e os antagonismos sociais, econômicos, políticos e culturais.

Essa perspectiva se torna ainda mais efetiva a partir das sugestões do marxismo. O pensamento dialético também pode ser visto de modo original, desde os desafios abertos pelo presente e pelo passado das sociedades brasileira e latino-americana. Mas o seu conteúdo essencialmente crítico ressoa bem mais perto, congruente, consistente. Enquanto a sociologia é levada ao ponto de vista crítico, ainda que moderadamente, devido à força da questão social, o marxismo se coloca, desde o princípio, no horizonte dessa questão. As disparidades, desigualdades e contradições se colocam, desde o começo, como momentos nucleares de relações, processos e estruturas de dominação política e apropriação econômica que produzem e reproduzem a sociabilidade burguesa. “A contestação está implantada ao nível das estruturas do funcionamento e da transformação dessa sociedade de classes, nascida do capitalismo industrial” A imaginação sociológica, enriquecida pela dialética, pode “ligar o modo de existência, o movimento e a vida através das contradições”, procurando “estas últimas através de condições concretas variáveis de sociabilidade, associação e interação”. A dialética permite “apanhar a unidade no diverso”, isto é, “a totalidade como expressão de determinações particulares e gerais”. Em essência, o real e o pensado se constituem reciprocamente, de tal maneira que “a práxis vem a ser o critério experimental de verificação da verdade objetiva” (idem, ibidem, pp. 114-23). Assim se resgata a historicidade do social, que aparece de forma particularmente desenvolvida na revolução.

Há uma rica e complexa arquitetura na sociologia de Florestan Fernandes. Compreende os passos fundamentais, em termos lógicos, da teoria da explicação e da metodologia da pesquisa. Vai desde as formas de explanação, caracterizadas como descritiva e interpretativa, até as técnicas de pesquisa. Naturalmente essa ampla problemática envolve sempre um diálogo com os clássicos e os modernos, inclusive do pensamento marxista.

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A reflexão de Florestan Fernandes sobre os fundamentos lógicos e históricos da explicação sociológica se inspira nessa perspectiva critica e se constrói com ela. Aí se localiza a cuidadosa análise das três matrizes clássicas do pensamento sociológico: o método funcionalista, ou objetivo, sistematizado por Durkheim; o compreensivo, formulado por Weber; e o dialético, criado por Marx. Elas sintetizam muito do que se havia pesquisado e pensado até então e estabelecem os paradigmas, ou estilos, de pensar a realidade social, que exercem influência marcante em todo o pensamento sociológico no século XX. “O método de compreensão, cuidando dos problemas pertinentes à socialização e às bases sociogenéticas da interação social, permite abstrair as variáveis operativas de um campo a-histórico; o método objetivo (ou genético-, comparativo), focalizando os problemas ortogenéticos e filogenéticos colocados pela classificação das estruturas sociais, permite abstrair as variáveis operativas, combinadas em constelações nucleares mutáveis, de um campo supra-histórico; e o método dialético, tratando das relações existentes entre as atividades socialmente organizadas e a alteração dos padrões da ordem social, que caem na esfera de consciência social, permite abstrair as variáveis operativas de um campo histórico.” Cada método lida com a realidade social de forma peculiar, quanto à relação do real com o pensado e vice-versa. Essas peculiaridades estão simbolizadas no “tipo-ideal” weberiano, no tipo “médio” durkheimiano e no tipo “extremo” marxista. Cada um “representa uma construção lógica ou mental, produzida em função dos intuitos ou propósitos cognitivos do investigador” (Fernandes, 1967, p. 38). Sob vários aspectos, a minuciosa e fundamental análise desses paradigmas propicia o resgate do conteúdo crítico do pensamento clássico. Resgate esse cada vez mais estimulado pela reflexão dialética.

E claro que as contribuições teóricas dos clássicos tiveram desenvolvimentos diversos, às vezes notáveis. Além disso, têm surgido outras e novas propostas teóricas: fenomenologia, existencialismo, estruturalismo, estrutural-funcionalismo, hiperempirismo dialético, teorias de alcance médio, teorias sistêmicas e assim por diante. Mas talvez seja possível afirmar que todas as mais notáveis contribuições teóricas posteriores aos clássicos guardam algum, ou muito, compromisso com eles. A sociologia é uma forma de apropriação e constituição do mundo social, gerada pela dissolução da comunidade, pela emergência da sociedade burguesa e pela dinâmica de uma sociedade fundada na desigualdade social, econômica, política e cultural.

Esse, em forma breve, o nível, o estatuto, em que se lança a sociologia crítica. Sintetiza e desenvolve um diálogo de amplas proporções. Nesse sentido é que se pode dizer que a sociologia de Florestan Fernandes sintetiza as contribuições de cinco fontes. Algumas das principais características da sua produção intelectual expressam um diálogo com essas fontes. Naturalmente elas se revelam de modo diferenciado, menos aqui, mais ali. Não são igual e homogeneamente visíveis em cada monografia, ensaio, livro, artigo, aula, conferência, debate. Mas se mostram plenas no todo, quando examinamos o conjunto da produção intelectual de Florestan Fernandes. Vejamos, pois, essas fontes.

Primeiramente, cabe ressaltar a sociologia clássica e moderna. O diálogo contínuo, aberto e crítico se desenvolve com os principais sociólogos, ou cientistas sociais, que apresentam alguma contribuição para a pesquisa e a interpretação da realidade social. Aí estão representantes notáveis das escolas francesa, alemã, inglesa e norte-americana, como, por exemplo: Comte, Durkheim, Le Play, Simiand, Mauss, Gurvitch e Bastide; Weber, Sombart, Pareto, Simmel, Tõnnies, Wiese, Freyer e Mannheim; Spencer, Hobhouse, Malinowski, RadcliffeBrown e Ginsberg; Cooley, Giddings, Park, Burgess, Parsons, Merton e Wright Mills. Estes são alguns dos clássicos e modernos que se encontram no horizonte intelectual de Florestan Fernandes, por sugestões, desafios, temas, teorias e controvérsias que apresentam e provocam. Dentre todos, sobressai Mannheim.

Em segundo lugar, se destaca o pensamento marxista. É contínuo e crescente o diálogo com as obras de Marx, Engels, Lênin, Trótski e Gramsci, entre outros. Esse diálogo se revela desde a tradução de Contribuição à crítica da economia política, de Marx, e a “Introdução” escrita para esse livro, publicado em 1946. Continua, de modo cada vez mais amplo, em escritos, cursos, conferências, debates. Está presente nas reflexões sobre os problemas da indução na sociologia. Um momento importante do debate com Merton sobre o funcionalismo, em 1953, está inspirado na segunda tese de Marx sobre Feuerbach: “A questão de saber se ao pensamento humano cabe verdade objetiva não é uma questão de teoria, mas uma questão prática” (idem, ibidem, p. 308). A progressiva incorporação do pensamento dialético se mostra tanto na escolha dos temas como no tratamento dado a eles. Aprofunda-se e alarga-se a perspectiva crítica. A reflexão sociológica adquire toda a sua envergadura histórica, abrindo horizontes e criando desafios para o pensamento brasileiro. Criam-se desafios inclusive para os movimentos sociais e os partidos políticos comprometidos com as lutas de grupos e classes populares. Os movimentos e partidos são levados a questionamentos básicos, diante das análises desenvolvidas por Florestan Fernandes a propósito da forma da revolução burguesa e da continuidade da contra-revolução burguesa. “Trata-se de converter a teoria em força cultural e política (ou em força real), fazendo-se com que ela opere a partir de dentro e através de ações concretas de grupos, classes sociais ou conglomerados de classes” (idem, 1980, p. 126).

Em terceiro lugar, é importante a corrente mais crítica do pensamento brasileiro. Em diferentes momentos se manifesta um diálogo, explícito ou implícito, com Euclides da Cunha, Lima Barreto, Manuel Bonfim, Astrojildo Pereira, Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior e outros cientistas sociais e escritores, inclusive do século XIX. Em diferentes escritos, se reencontram sugestões, desafios ou temas suscitados pela obra desses autores. Eles compõem uma espécie de família intelectual fundamental e muito característica no pensamento brasileiro. Levam em conta as lutas dos mais diversos setores populares que entram no passado e no presente da sociedade brasileira. Ajudam a recuperar algumas dimensões básicas das condições de existência, de vida e de trabalho, de índios, caboclos, escravos, colonos, seringueiros, peões, camaradas, sitiantes, operários e outros, pretéritos e presentes.

Em quarto lugar, é básico o significado dos desafios da época, a começar pelos anos 40. As transformações em curso na sociedade, em termos de urbanização, industrialização, migrações internas, emergência de movimentos sociais e partidos políticos, governos e regimes, sem esquecer as influências externas, criam e recriam desafios práticos e teóricos para muitos. Tanto a universidade como o partido, a imprensa como a Igreja, o governo como o imperialismo, todos são levados a pensar e repensar o jogo das forças sociais, os movimentos da sociedade, a marcha da revolução e da contra-revolução. O país agrário se transforma em industrial, sem perder a cara de agrícola. Tudo se urbaniza, aos poucos ou de modo abrupto, sem perder o jeito rural. Há freqüentes irrupções do povo no cenário da história, com freqüentes soluções de compromisso, conciliação ou paz social, tecidas pelos partidos, formuladas por intelectuais, impostas por grupos e classes dominantes, com a colaboração da alta hierarquia militar e eclesiástica, todos na sombra do imperialismo. Uma época de muitos desafios. Pode-se dizer que “a década de 40 foi para o intelectual uma década de consolidação, especialmente quando se pensa em termos de universalidade; a década de 50 é uma década de florescimento; de auto-afirmação e que engendra a era de conflito irremediável”. Os movimentos e acontecimentos sociais e políticos, bem como econômicos, culturais e outros levam o intelectual a repensar o seu relacionamento com a sociedade, a desmistificar muito do que conta a história. “Inclusive, foi possível levar o desmascaramento mais longe e constatar-se que a Revolução de 30 foi uma revolução elitista, com ressonância popular, que á chamado populismo’ foi antes uma manipulação demagógica do poder burguês do que uma autêntica abertura para as pressões de baixo para cima’ .” (Idem, 1978, pp. 49-51).

Em quinto e último lugar, é fundamental a presença dos grupos e classes sociais que compreendem a maioria do povo, descortinando um panorama social e histórico mais largo do que aquele que aparece no pensamento produzido segundo as perspectivas dos grupos e classes dominantes. É o negro, escravo e livre, isto é, trabalhador braçal, na lavoura e indústria, que descortina um horizonte inesperado, amplo. Ao lado da presença de índios, imigrantes, colonos, camaradas, peões e outros, a do negro na história social brasileira desvenda perspectivas fundamentais para a construção do ponto de vista crítico na sociologia, nas ciências sociais e em outras esferas do pensamento brasileiro. “As coisas que tiveram maior importância na minha obra como investigador se relacionam com pesquisas feitas na década de 40 (como a investigação sobre o folclore paulista, a pesquisa de reconstrução histórica sobre os Tupinambá e várias outras, de menor envergadura) ou com a pesquisa sobre relações raciais em São Paulo feita em 1951-52, em colaboração com Roger Bastide (e suplementada por mim em 1954). Esse trabalho puramente intelectual conformou o meu modo de praticar o ofício de sociólogo:” Contemporaneamente, ressoam na vida intelectual os movimentos e acontecimentos sociais, políticos e outros. A participação na campanha de defesa da escola pública descortina novas possibilidades e responsabilidades do intelectual. “O que foi uma ruptura já não teórica, mas pratica” Um movimento que desvenda muitos recantos da sociedade e da história. “Foi uma avenida que nos pôs em contato com os problemas humanos da sociedade brasileira.” Os desafios representados pelos movimentos e acontecimentos da época podem ser produtivos para o intelectual. “Ele pode descobrir coisas sobre a sociedade que ficam ignoradas quando ele se protege por trás do escudo da `neutralidade’ e da `profissão’, isolando-se mentalmente. Quando se está ligado na máquina do mundo, aproveita-se a colaboração coletiva dos auditórios, o que torna o movimento de idéias muito mais rico, aberto e fecundo” (idem, ibidem, pp. 50, 60-1, 64-5 e 68-9).

No todo, ainda que em forma breve, essas são as cinco fontes principais da sociologia crítica fundada por Florestan Fernandes. É claro que se poderiam acrescentar outras inspirações, tais como: a militância política, a reflexão sobre a responsabilidade ética e política do sociólogo, o convívio com o pensamento latino-americano, destacando-se figuras como as de José Martí, José Carlos Mariátegui, Ernesto Che Guevara e assim por diante. Mas aquelas fontes, tomadas em conjunto, sintetizam as matrizes da sociologia inaugurada por Florestan Fernandes no Brasil. Sociologia crítica, essa que se caracteriza como um estilo de pensar a realidade social a partir da raiz.

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Em síntese, a sociologia brasileira está amplamente marcada pela obra de Florestan Fernandes, de tal maneira que está presente na formação dessa sociologia em dois modos particularmente notáveis.

Primeiro, entra de maneira decisiva na construção da sociologia como um sistema de pensar a realidade social. O seu compromisso com as exigências lógicas e teóricas da reflexão científica representa uma contribuição básica, no sentido do amadurecimento da sociologia. As próprias controvérsias que esse padrão intelectual suscita revelam que a sociologia brasileira ultrapassa uma fase de timidez metodológica e teórica, ingressando em uma etapa em que todas as implicações teóricas e históricas desse sistema de pensar a realidade social são assumidas no cotidiano de ensino e pesquisa. Muito do que vinha sendo ensaiado de maneira episódica, aqui e acolá, adquire maior sistemática, outro ímpeto. Simultaneamente, as pesquisas realizadas e suscitadas por Florestan Fernandes, bem como por sua influência, abrem novos horizontes para a reflexão sobre a sociedade e a história.

Segundo, cria um novo estilo de pensamento na sociologia brasileira. A sociologia crítica, compreendendo teoria e história, sintetiza um estilo de pensar a realidade social. Ao resgatar o ponto de vista crítico da sociologia clássica e moderna, com base nos ensinamentos do marxismo, e recuperar o ponto de vista crítico oferecido pelas condições de vida e trabalho dos oprimidos da cidade e do campo, a obra de Florestan Fernandes cria e estabelece um novo estilo de pensamento. Assim, a sociologia brasileira adquire outra dimensão, alcança outro horizonte. E a partir desse horizonte que se torna possível re-voltar às raízes pretéritas, presentes; descortinar o futuro.

BIBLIOGRAFIA:

FERNANDES, Florestan. (1967), Fundamentos empíricos da explicação sociológica. São Paulo, Nacional.

—. (1970), Elementos de sociologia teórica. São Paulo, Nacional.

—. (1978), A condição de sociólogo. São Paulo, Hucitec.

—. (1980), A natureza sociológica da sociologia. São Paulo, Ática.

  • O primeiro texto foi copiado do site InfoEscola. O segundo texto foi escrito por Otávio Ianni*.
  • Adaptado para o blog ‘Coração Filosofante’, por Baruch Amanuensis

Leia mais, em:

http://www.infoescola.com/sociologia/florestan-fernandes/

http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_30/rbcs30_06.htm

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