Sociedade desvaloriza docência ao achar que todos podem lecionar*

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Todo dia 15 de outubro, comemora-se, em nosso país, o Dia dos Professores. Como docente, fico especialmente feliz por ser lembrada, nesta data, pelos meus alunos, ex-alunos, amigos e familiares. Mensagens de afeto e de estima deixam, sem dúvida, todo educador feliz.

Entretanto, além de mensagens de apoio e carinho, ouso dizer, em nome dos professores brasileiros, que desejamos ser reconhecidos, por todos os segmentos da sociedade, como profissionais do ensino.

Infelizmente, ainda hoje, a imagem da docência permanece no campo dos valores altruístas e da realização pessoal. O dom e a vocação, o amor pelas crianças, o amor pelo outro, o amor pela profissão e o amor pelo saber parecem sustentar a ideia que se tem sobre o ser professor.

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Por sua vez, esse entendimento socialmente construído e persistente traz implícito um equívoco: o de não reconhecer a existência de um conjunto de saberes indispensável ao trabalho docente que os outros –que não são professores– não dominam.

Entendo que o mais importante deles, e que se encontra unicamente no domínio dos professores, diz respeito ao saber fazer com que o conhecimento seja aprendido e apreendido pelo aluno por meio da ação docente. É o que a sociedade espera que ele faça.

Assim, neste 15 de outubro, a bandeira que eu levanto é a de combate à ideia de que “qualquer um pode ser professor”. Infelizmente, o não reconhecimento de um conhecimento específico para o exercício da docência associado à precarização da profissão –que envolve condições conjunturais como salários, níveis de participação, carreira, condições de trabalho, formação, entre outros– vem contribuindo para que a docência se mostre menos motivadora do que outras opções profissionais, o que tem acarretado escassez de professores, especialmente em algumas áreas e segmentos de ensino.

Em pesquisa sobre a atratividade da carreira docente, desenvolvida pela Fundação Carlos Chagas sob a encomenda da Fundação Victor Civita, em 2009, uma aluna de uma escola pública de Feira de Santana (BA), preocupada com o futuro da profissão docente, argumenta: “hoje em dia, quase ninguém quer ser professor. Nossos pais não querem que nós sejamos professores, mas eles querem que existam bons professores. Mas, como é que vai existir bons professores se meu pai não quer, o dela não quer? Como é que vai ter professores? Aí fica difícil, não é?”.

E fica mesmo! Cada um de nós é responsável pela construção de um referencial positivo do professor. A bandeira pelo reconhecimento profissional do ensino implica também no desenvolvimento de políticas públicas que tenham como prioridade a valorização do magistério, dos cursos de licenciatura e no reconhecimento do papel do ensino e da educação básica para o desenvolvimento do país, para a formação de uma cidadania ativa e para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana.

Cada um dos mais de 2 milhões de professores brasileiros merece não só o nosso reconhecimento, como também o direito de ser de fato assistido em sua formação e em seu desenvolvimento profissional. Parabéns, professor! Parabéns, também, aos jovens que optaram pela docência como profissão!

  • Texto escrito para o site UOL em 15/10/2015, por Patrícia Cristina Albieri de Almeida* – Pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e professora da Universidade Católica de Santos.
  • Texto adaptado para o blog ‘Coração Filosofante’, por Baruch Amanuensis.
  • Imagens: Divulgação Internet, Greve dos Professores de SP em 2015.

Leia mais em:

http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2015/10/15/e-dificil-achar-bons-professores-mas-quase-ninguem-quer-lecionar.htm?cmpid=fb-uolnot

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