Papa Francisco, a tabeliã americana, a comunidade LGBT e os Direitos Humanos*

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Francisco, o papa, veio chegando, a gente esperando pouco e ele surpreendendo para o bem. Depois dos discursos em Cuba e nos Estados Unidos quase perguntei aqui, parafraseando com sinais trocados o magoado Reinaldo Azevedo, quanto mais faltava para que um papa tão “bolivarianista” pudesse se tornar também “gayzista” e “feminazi”. Teria sido um sonho para o meu coração liberal, embora, reconheça, um pesadelo para os conservadores.

Bom demais para ser verdade, não é mesmo? Eis que o bom Francisco é descoberto em secreta oitiva da tiazinha americana que não apenas se recusava a casar homossexuais, como impedia que homossexuais pudesse casar no seu município. Que mal há em ouvir, ainda mais os penitentes? Nenhum, claro. Mas a declaração pública do papa Francisco reflete estado de ânimo bem distante disso. Pois não é que o bom papa decidiu que o que fez a moça foi “objeção de consciência” e que, portanto, não apenas não é crime como faz parte dos Direitos Humanos?

Como assim, objeção de consciência? A cláusula da objeção de consciência é a última defesa de um indivíduo contra uma opressão estrutural que lhe induziria a violar valores que um exame racional, sob a luz da norma moral, pode provar serem válidos e justos (sim, sou um racionalista). Se sou um pacifista (e o pacifismo é um valor), é justo que eu alegue objeção de consciência para evitar o Serviço Militar obrigatório. Não posso alegar objeção de consciência, por exemplo, para que meu filho não se submeta a uma transfusão de sangue prescrita pelos médicos, em virtude de minhas crenças pessoais. Objeção de consciência é para me proteger da opressão, não para eu oprimir os outros. Não posso alegar objeção de consciência para impedir que outras pessoas se alistem no Serviço Militar. Não posso transformar minha convicção num dogma e enfiá-la goela abaixo em todos, violando todas as outras convicções diferentes da minha e alegar objeção de consciência. Claro que não.

Se a tiazinha fanática simplesmente se recusasse a oficiar os casamentos, e se retirasse para rezar e prantear pelos pecadores, em silêncio, enquanto outras autoridades cumpriam o que a lei lhes manda fazer, até poderia alegar objeção de consciência. Mas o que ela fez foi, no nível mais básico, obstruir a Justiça, impedir o cumprimento da lei, e, no nível mais complexo, trabalhar ativamente, com base exclusiva em suas convicções e preconceitos vividos dogmaticamente, para suprimir direitos de terceiros. Foi colocar seus preconceitos e uma exegese rasteira e fanatizante da Bíblia acima do contrato social de uma comunidade política baseada na Lei e não na Fé. O ativismo movido por um preconceito arcaico nada tem de objeção de consciência nem de Direitos Humanos. Antes, ao contrário, atua fortemente contra a liberdade de consciência e contra os direitos dos outros que vivem e creem diferentemente do ativista.

  • *Texto Escrito pelo professor baiano Wilson Gomes.

Texto compartilhado de sua página no Facebook. Disponível em:

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