Aristóteles, René Descartes e Vilém Flusser: a admiração e a dúvida como princípios da reflexão filosófica.

Nestas linhas, consideramos acerca reflexão filosófica, como a mesma começa e qual é o seu fim. Para tanto, estudaremos rapidamente três filósofos, um antigo, um moderno e, por último, um contemporâneo.

Aristóteles (385-322 a. C.), filósofo grego antigo, foi também professor de Alexandre, o grande. Este filósofo compreende que o princípio da filosofia está na admiração, na contemplação das coisas e do mundo – ele deve este entendimento à instrução de seu mestre Platão, para quem “a verdadeira marca de um filósofo é o sentimento de admiração”, que experimentamos diante das coisas, do mundo, etc.. Sobre o destaque concedido por Aristóteles à admiração, leiamos um trecho de seu pensamento, escrito na obra Metafísica, onde o filósofo afirma o seguinte:

É, com efeito, a admiração que leva e levou os primeiros filósofos à especulação filosófica. No inicio, sua admiração voltava-se para as primeiras dificuldades que se apresentavam ao espírito; depois, progredindo pouco a pouco, estenderam sua investigação a problemas mais importantes, tais como os fenômenos da lua, os do sol e das estrelas, e enfim à gênese do Universo. Ora, perceber uma dificuldade e admirar-se é reconhecer a própria ignorância – por isto o amante dos mitos e, em certo sentido, amante da sabedoria, pois os mitos são compostos de maravilhas .

Aristóteles é incisivo: a admiração é o elemento fundamental da gênese do filosofar. Em outras palavras, a admiração é a pedra que funda a construção de uma reflexão filosófica. Aliado à admiração está o reconhecimento da própria ignorância. À medida que refletimos, nos damos conta que não sabemos tudo. Daí ser necessário duvidarmos de tudo e de todos, inclusive de nós mesmos.

A esta perspectiva, une-se a reflexão de René Descartes (1596-1650), filósofo francês moderno. Descartes revoluciona a forma de pensar a filosofia no Ocidente. Propõe que duvidemos de tudo. A dúvida é um método, isto é, um caminho para se chegar à verdade. “A dúvida metódica aguça o espírito crítico próprio da vida filosófica, e nisso reside a sua eficácia”. Descartes primeiro duvida da existência de tudo; ao duvidar, nota que ele pensa, logo, o pensamento existe. Se o pensamento existe, há ao menos um ser, um eu (sujeito) que pensa, portanto, “Penso, logo existo” – eis aí uma verdade indubitável. A dúvida é assim celebrada por este filósofo como um princípio da reflexão filosófica. É preciso duvidar de tudo e de todos para se chegar a conclusões claras e distintas (não confundir esse “duvidar de tudo” com o ceticismo, que é o mero duvidar por duvidar). É preciso descartar as velhas certezas, questioná-las e confrontá-las a fim de alcançar a verdade.

Por sua vez, Vilém Flusser (1920-1991), filósofo tcheco-brasileiro, destaca o primado da dúvida como a razão primeira da experiência filosófica. Diz ele:

A dúvida é polivalente. Significa o fim de uma certeza. Significa a procura de certeza. Significa ainda, se levado ao extremo, ceticismo, isto é, certeza invertida. Em doses moderadas estimula o pensamento. Em doses excessivas paralisa o intelecto. Como experiência intelectual é um dos prazeres puros. Como experiência moral é tortura.

Sem rodeios, a admiração e a dúvida são princípios indispensáveis à reflexão filosófica. Admirar o mundo e as coisas, duvidar do mundo e das coisas, são atitudes genuinamente filosóficas, cujo fim nada mais é que a construção do pensamento crítico.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Metafísica (Alpha). Tradução. Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2001.

DESCARTES, René. Discurso do Método. Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

FLUSSER, Vilém. Da religiosidade. São Paulo; Comissão Estadual de Cultura, 1967.

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