Pablo Vilaça: a neodireita e essa tal de meritocracia

A “meritocracia” é uma autoilusão de grandeza para quem acha que atingiu um patamar invejável. E é uma autoilusão de futuro possível para quem ainda o almeja.

A neodireita adora berrar que a “meritocracia” é o “sistema” ideal – e é fácil compreender por que fazem isso: é uma maneira de ao mesmo tempo justificar os privilégios de quem já tem muito (como pagar menos impostos de quem tem pouco) e de garantir que os que têm pouco não se revoltem. “Trabalhe e conseguirá o que conseguir”, vendem numa estratégia publicitária. “O Estado não deve ajudar quem precisa; é melhor ensinar a pescar”, repetem sempre, deixando de dizer a parte fundamental que se segue: “A não ser claro, que quem ‘precisa’ for eu através de créditos de financiamento reduzido do BNDES, de ‘bailouts’ caso minha corporação quebre, de liberdade para comprar mandatos parlamentares e (de novo) de impostos reduzidos”.

É inacreditável perceber como o candidato desta neo-direita pode repetir o mantra da “meritocracia” ao mesmo tempo em que toda a sua carreira se deve não aos seus esforços, mas aos de seus antepassados, que abriram seu caminho na vida pública através de cargos comissionados já na juventude, de fortunas que asfaltaram este caminho e de contatos poderosos que garantiram que a estrada estivesse sempre aberta e sem fiscalização.

O conceito de “meritocracia” é um cuspe perverso na cara de 95% da população – e o mais chocante é perceber como parte destes 90% acaba absorvendo a retórica dos 5% e defendendo-a sem perceber que está agindo contra seus próprios interesses.

O grande truque do Diabo é fazer você defender os interesses dele acreditando que são os seus. E a mídia é o braço direito do Diabo, seu chefe de relações públicas, seu agente, seu porta-voz.

Outro dia, um leitor me perguntou como eu podia ser contra a “meritocracia” se certamente havia atingido um bom status na minha profissão graças aos meus próprios esforços. 

De fato, sou um privilegiado por viver da escrita e do Cinema – algo difícil em qualquer país e ainda mais complicado no Brasil, onde a cultura é sempre a primeira a ser considerada dispensável. E também me considero feliz por ter um número considerável de leitores e até mesmo de pessoas que se identificam como minhas “fãs” (embora eu sinta um estranhamento ao ouvir este termo, já que não me vejo na posição de ter “fãs”).

E, sim, trabalhei e estudei muito e longamente para chegar aqui. E não pude contar com ninguém para abrir o caminho, pois não tenho parente algum que tenha trabalhado na área para facilitar a jornada.

Assim sendo, posso dizer que foram apenas meus méritos que me trouxeram até aqui e que sou um exemplo perfeito do sucesso do sistema “meritocrata”?

Até poderia – caso eu fosse extremamente hipócrita.

Pois a verdade é que tive ajuda – e muita – para chegar até aqui.

Pude estudar em escolas particulares. Pude comprar os livros que precisava. Pude alugar filmes e mais filmes e tive tempo de assisti-los. Tinha meu próprio quarto e, por não ter que dividi-lo com ninguém, podia me concentrar nos estudos e em outras tarefas (e, na adolescência, também a outras “tarefas”). Não tive que trabalhar para ajudar na renda familiar. Não tive que cuidar de meus irmãos mais novos enquanto minha mãe (viúva aos 27 anos) trabalhava fora, pois tínhamos assistente doméstica (ou, como se dizia naquela época, “empregada”). 

Pude fazer excursões. Pude sair com os amigos. Ir ao cinema, ao teatro. Viajar durante as férias e, assim, recarregar as baterias. Tive computador no quarto. Nunca passei fome. Pude fazer cursinho para me preparar para o vestibular. 

Ao decidir largar a faculdade de Medicina (na UFMG, para a qual passei graças à possibilidade de poder me dedicar aos estudos), não hesitei em abandonar uma profissão estabelecida por outro de futuro incerto, já que, por nunca ter tido que lutar por meu sustento e por não ter uma família que dependia de mim, podia me dar ao luxo de me arriscar a tentar viver de minha profissão dos sonhos. E, durante os primeiros anos, quando não ganhava um centavo com meus escritos, pude depender do apoio financeiro de minha família.

Sim, trabalhei muito. Insisti. Perseverei. 

Mas na corrida rumo ao sucesso profissional em minha área, saí MUITO na frente de pessoas que não tiveram a mesma oportunidade que eu. E que, portanto, jamais puderam competir em pé de igualdade comigo. Dizer que “venci” por ser melhor do que elas seria uma imensa estupidez. Seria crueldade. E seria mentira.

Pois o fato é que vivemos numa sociedade – e a “meritocracia” tenta ignorar isso. Tenta afirmar que TODOS têm a oportunidade de “vencer”, o que é uma inverdade colossal. Mas é uma inverdade conveniente aos que já detêm o poder, pois amansa os que não detêm poder algum, mas que acabam acreditando que, sozinhos, poderão alcançá-lo.

Não posso comprar esta mentira apenas porque seria reconfortante pensar que foi apenas minha competência que me trouxe até aqui. Pois minha competência, sozinha, acabaria sendo sufocada por um contexto mais hostil.

Como disse o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, “Eu sou eu e minhas circunstâncias; se não salvo a elas, não salvo a mim”.

E não reconhecer as minhas circunstâncias seria não só uma imensa arrogância, mas uma profunda ingratidão.

Disponível em:

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