A língua de Freud e a nossa.

Escrito por: Gilson Iannini


Comparado ao restante do mundo ocidental, o Brasil está entre os países em que Freud é mais lido e em que a prática que ele fundou, a psicanálise, ainda goza de considerável prestígio em diversos campos da vida social. Curiosamente, durante décadas, a difusão de Freud entre nós deu-se através de traduções indiretas, quase exclusivamente através da célebre Edição Standard (Editora Imago). Como todos sabem, a edição de James Strachey é primorosa do ponto de vista editorial, contendo um invejável sistema de remissão interno e preciosas “notas do editor inglês”, mais tarde revisadas e incorporadas até mesmo à Edição de Estudos alemã. No entanto, do ponto de vista da tradução, a Standard Edition já apresentava diversos problemas e escolhas no mínimo duvidosas, algumas delas devidas mais ao pulso forte de Ernest Jones do que às opções do próprio Strachey. No limite, a Standard visava aclimatar Freud para o público de língua inglesa, tornando-o mais objetivo, terminológico e abstrato do que realmente era no original, mais rico e polifônico. Na versão brasileira traduzida a partir da edição inglesa, tais problemas foram exponenciados a um limite extremo. A prosa freudiana, cujas qualidades literárias lhe renderam em 1930 o prêmio Goethe de literatura, havia submergido por debaixo de uma escrita árida, pretensamente científica. Tal estado de coisas, curiosamente, fomentou um intenso debate acerca da tradução de Freud, nos meios universitários e nas instituições psicanalíticas. Talvez não seja exagero dizer que esse debate acabou tendo um paradoxal efeito difusor, na medida em que atiçou a curiosidade de pesquisadores de áreas diversas.

Exercícios de substituição

Quem frequentou cursos sobre Freud, acostumou-se desde as primeiras lições a estranhos exercícios de substituição. Os professores insistiam, às vezes com mais conhecimento de causa, às vezes com menos, que os jovens leitores deveriam substituir, durante a leitura, “instinto” por “pulsão”, “repressão” por “recalque”, “ego” por “eu”, “catexia” por “investimento”, para citar apenas os exemplos mais ilustres. Acostumados então a esse estranho procedimento de leitura, o debate acerca da tradução ficou, por muito tempo, polarizado em questões meramente terminológicas, deixando à sombra diversos outros aspectos envolvidos na tarefa da tradução, relativos aos aspectos estilístico-literários, por exemplo.

Estes debates ganharam a cena pública no final da década de 1980, com as contribuições fundamentais de Paulo César de Souza e de Marilene Carone que foram publicadas na imprensa escrita. Carone chegou a qualificar a tradução brasileira de Freud como “selvagem”. Estudos minuciosos acerca dos descaminhos da tradução brasileira, tais trabalhos fomentaram o debate e nutriram por bastante tempo nossos anseios por um Freud traduzido diretamente do alemão. A discussão acerca dos usos freudianos da língua alemã e os desafios de sua tradução ganharam tratamento teórico sofisticadíssimo com a publicação, um pouco mais tarde, do Dicionário comentado do alemão de Freud de Luiz Alberto Hanns (Imago, 1996) e de As palavras de Freud, de Paulo César de Souza (Ática, 1999). Tudo indicava que o sonho de um Freud mais fidedigno estaria perto de se concretizar a partir de 2010, quando a obra de Freud entraria em domínio público.

A editora Imago, detentora dos direitos até então, adiantou-se e encomendou a Hanns, antes que a obra entrasse em domínio público, uma nova tradução, diga-se de passagem, extremamente criteriosa, preocupada em estabelecer redes semântico-conceituais capazes de tentar recriar a atmosfera do alemão de Freud. Foram publicados, desde então, apenas três volumes. Desde 2009, outro projeto de grande envergadura veio a lume: a Companhia das Letras lança, com tradução de Souza, uma coleção também de Obras Completas (planejada para 20 volumes). Mas a frustração da comunidade analítica foi proporcional à expectativa que ela nutriu. O promissor projeto de Hanns parece ter sido precocemente interrompido. Por seu turno, a tradução de Souza, embora com inigualável capacidade de recriação literária, que conferiu fluidez e elegância antes imperceptíveis ao leitor brasileiro, acabou prolongando o tão mal afamado exercício de leitura substitutiva. Embora o tradutor tenha razão em dizer que termos técnicos que exigiriam do psicanalista o exercício de substituição mental sejam “em número bem menor do que geralmente se acredita”, ele parece não dar a devida importância ao fato de que tais esforços são exigidos justamente em alguns dos termos mais fundamentais, alguns dos quais receberam de Freud o estatuto de Grundbegriffe, isto é, de “conceitos fundamentais”, como é o caso de “Trieb”, vertido por Souza como “instinto”, ou “Verdrängung”, vertido como “repressão”, na contramão da prática da grande maioria dos psicanalistas, independente de suas filiações institucionais.

Obras completas, obras incompletas

Além desses dois projetos de “obras completas”, surgiram desde então novos modelos editoriais. Até mesmo porque o adjetivo “completa” carece de explicitação. Nenhum dos dois projetos acima mencionados inclui, por exemplo, textos seminais como o estudo sobre as Afasias publicado por Freud em 1891. Isso porque a definição de critérios editoriais para a inclusão ou não de determinada carta, determinado texto “pré-psicanalítico” nunca é óbvio. Definir o que é psicanalítico, não-psicanalítico (textos exclusivamente neurológicos) ou pré-psicanalítico (textos escritos em vocabulário neurológico ou híbrido, mas com relevância metapsicológica) depende de como entendemos o que é a própria psicanálise.

Dentre projetos que não se definem como “obras completas”, temos até o momento o seguinte quadro: a L&PM lançou alguns volumes, com competente tradução de Renato Zwick, em formato de bolso e com preço mais acessível, privilegiando os assim chamados textos sociológicos e, mais recentemente, uma tradução de A interpretação dos sonhos; enquanto a Cosac Naify apostou no caminho inverso, lançando uma luxuosa edição de Luto e melancolia, com primorosa tradução e notas de Marilene Carone, acrescida de alentado aparato crítico, incluindo ensaios de importantes psicanalistas e escritores. A mesma editora promete ainda para 2014 a publicação das Conferências introdutórias, também com tradução de Marilene Carone, editadas por André Carone. Outro projeto de grande envergadura, previsto para ser lançado até setembro deste ano, intitula-se Obras incompletas de Sigmund Freud. Trata-se de uma edição temática coordenada por Pedro Heliodoro Tavares (Editora Autêntica).

O dossiê

Os textos reunidos neste dossiê pretendem mostrar diversos aspectos envolvidos na tarefa não apenas de traduzir, mas também de editar Freud. Foram convidados os principais tradutores atualmente envolvidos em projetos de tradução de Freud para o português. Por razões pessoais, Paulo César de Souza e Renato Zwick declinaram do convite.

Em seu instigante artigo “Psicanalistas à procura de um autor”, Pedro Heliodoro Tavares, autor de um importante estudo sobre as versões brasileiras de Freud (Versões de Freud, 7Letras, 2011), insiste na complexidade da tradução de Freud, na medida em que “do texto de Freud, se traduz também o substrato teórico que sustenta uma prática clínica amparada nas capacidades representacionais e transformadoras da palavra”. Para Tavares, o tradutor deve “escutar texto”.

Na mesma linha de argumentação, Luiz Alberto Hanns mostra, com incomparável precisão técnica, que, em Freud, semântica e teoria estão estreitamente ligadas. Ao analisar a escolha do termo “frustração” para traduzir “Versagung”, o autor mostra como um equívoco de tradução não é não apenas um problema terminológico ou semântico, mas também um equívoco teórico e, no limite, clínico. Hanns mostra como a tradução de “Versagung” por “impedimento” não muda apenas um vocábulo, mas toda uma maneira de entender o desencadeamento de uma neurose. Vale a pena acompanhar a por vezes árida, mas sempre fecunda análise proposta de autor.

André Carone examina as novas edições inglesas da obra de Freud, que se pautam por princípios inteiramente novos, a começar pelo descentramento do próprio trabalho de tradução. Ao convidar tradutores não especialistas em Freud, aspectos inauditos da escrita freudiana saltam aos olhos. Por exemplo, ao reconhecer que a histeria produz uma linguagem, a nova tradução inglesa sublinha que essa linguagem se infiltra dentro do discurso sobre a histeria. Freud resolve impasses relativos à relação entre a generalidade do conceito e a irredutibilidade singular do caso através do estilo: “mais do que escrever sobre a histeria, ele soube torná-la presente em sua linguagem ao mobilizar palavras para atender as determinações da matéria que investiga”.

O texto de Ernani Chaves faz um achado histórico importantíssimo. Através de um recurso à tradução francesa de um texto de Walter Benjamin em 1936, ele desmonta um dos argumentos mais comuns contra a tradução de “Trieb” por “pulsão”. Enquanto parte dos críticos da solução difundida por Lacan aponta nela um grosseiro e desnecessário neologismo, Chaves mostra um precedente de peso que traduziu, muito antes de Lacan, o “Trieb” freudiano por “pulsion”. Além disso, ele aponta a dimensão política em jogo numa tradução naturalizante, e, no limite, normativa, do psiquismo.

Clínica e tradução

Afinal, uma tradução nunca é neutra ou anódina. Como os textos aqui coligidos demonstram, há dimensões não apenas linguísticas (terminológicas, semânticas, estilísticas) envolvidas na tradução, mas também éticas, políticas, ideológicas, teóricas e, sobretudo, clínicas. O texto de Freud não é um texto literário, embora qualidades literárias não lhe faltem. Ele é antes um texto que embasa uma determinada prática. Uma prática que tem na atividade clínica sua principal destinação, seja ela realizada em consultórios particulares ou na rede pública, sem contar nas diversas práticas em que conceitos freudianos são operatórios, como na teoria social, na teoria literária, na estética, na filosofia, e em campos conexos, isso sem falar nas diversas práticas políticas emancipatórias que encontraram na psicanálise um forte aliado teórico. Neste sentido, escolhas terminológicas não são sem efeitos práticos. Representar o sofrimento humano e os tratamentos possíveis que podemos dar a ele não são tarefas indiferentes à maneira como falamos deles e como os tratamos conceitualmente. Para tomar apenas o exemplo mais eloqüente, a escolha aparentemente neutra de “instinto” para traduzir “Trieb” não pode dissimular sua vinculação quase imediata a uma certa ideia de natureza, para dizer o mínimo, muito longe de ser operatória na prática clínica. É claro que, sendo um “conceito fundamental”, seus principais componentes estão definidos no interior da própria metapsicologia. Freud define seu conteúdo com extremo cuidado. Mas mesmo conceitos fundamentais não comportam “definições rígidas”, como afirma o próprio Freud em 1915. Afinal, parte de seu conteúdo é tomado de empréstimo, como que imposto de fora, tomado “daqui e dali”, retirado de “diversas fontes”: da própria língua e de suas diversas camadas de sentido sedimentado. Independentemente da louvável aspiração que alguém possa ter em alargar o campo semântico do termo “instinto”, buscando explicitamente desvinculá-lo de certa fixidez, nada disso, todavia, pode resguardar o vocábulo das ressonâncias normativas contidas no léxico naturalista que o engloba. Ainda mais no atual contexto político, em que as neurociências e afins se transformaram no fundamento científico da ideologia de supressão da subjetividade. Mas mesmo se nos ativermos ao terreno interno à psicanálise, é preciso insistir que representar teoricamente um inconsciente instintual, descrever a dinâmica instintual de determinado conflito psíquico ou analisar um episódio de agressividade instintiva não tem as mesmas consequências de pensar um inconsciente pulsional ou descrever uma dinâmica pulsional subjacente à gramática de determinado conflito ou tratar da irrupção de uma pulsão agressiva, por exemplo. Com efeito, uma das características mais marcantes da clínica freudiana é o caráter não-normativo de sua concepção de subjetividade, de sofrimento e tratamento possível. Foi essa diretriz ética da psicanálise que nutriu os diversos movimentos emancipatórios que nela se inspiraram e nela se nutrem cotidianamente.

No limite, o tratamento psicanalítico não deixa de ser uma estratégia de tradução, ou  pelo menos não deixa de conter, em alguns de seus procedimentos mais corriqueiros e em alguns momentos cruciais, alguns elementos afins a estratégias tradutórias. A clínica lida com sofrimentos que nos imobilizam e que nos fixam em determinadas posições onde imperam o silêncio ou a incapacidade de falar adequadamente de nossos desejos e de nossas limitações. A oferta de um novo espaço de uso da palavra, não por acaso batizado por uma paciente de Freud como talking cure, é a oferta ao paciente da possibilidade de traduzir, de ressignificar, de nomear ou mesmo de transcriar seu sofrimento miserável, seu gozo mórbido e suas repetições infinitas em um discurso menos mortífero.

Quando o poeta Rainer Maria Rilke lamentava que a beleza da natureza em uma tarde de verão estava prestes a desaparecer graças aos rigores do outono e do inverno, Freud opôs-se a ele e mostrou-lhe que o caráter transitório da beleza apenas aumenta seu valor. Quer mostrar ao poeta que a fragilidade e a precariedade de nossas conquistas pessoais e culturais também não devem diminuir a estima que temos por elas. A teoria freudiana do luto ensina que apenas renunciando a tudo que perdeu é que a libido pode ser ligada a novos objetos. Algo dessa ordem ocorre no curso de uma análise. O tratamento analítico, longe de prometer a eliminação do inelutável mal-estar e longe de prometer a felicidade (aliás, mais um nome contemporâneo por onde a normatividade social se insinua em nossos corpos e nossas vidas), abre ao sujeito um certo saber-fazer com seu sintoma. Um trabalho de tradução?

Por tudo isso, talvez não seja exagerado dizer que o Brasil ainda espera uma tradução que nos permita realizar o tão desejado, e o não menos adiado, “retorno a Freud”.

Gilson Iannini
é psicanalista, doutor em filosofia e professor da UFOP,
autor de Estilo e verdade em Jacques Lacan (Autêntica)

Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/07/a-lingua-de-freud-e-a-nossa/

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