Origens da Filosofia Ocidental. Filosofia pré-socrática.

Quando falamos de estudar filosofia, não falamos de estudar uma filosofia de origem hindu, chinesa ou japonesa, portanto, oriental, mas falamos de uma filosofia cujas origens remontam aos tempos imemoriais do Ocidente: falamos de uma filosofia ocidental ligada, em certa medida, aos tempos nos quais não havia ainda a escrita de uso popular, de modo que permitisse o pleno registro da memória das culturas outrora existentes. Quando estudamos as origens da filosofia ocidental, não lidamos com registros escrito-históricos completos, mas com fragmentos. A filosofia que estudaremos em nosso expediente letivo funda-se no pensamento dos filósofos ocidentais. Tais filósofos formularam seus pensamentos por volta de sete séculos antes de nossa era – a era cristã. Muito do que estes homens pensaram se perderam durante o transcorrer da história humana. De seus pensamentos nos sobraram apenas alguns fragmentos. Estes homens-pensadores floresceram entre o século VII e VI a. C. no continente grego, “mas em centros afastados de cultura grega, nas costas do sul da Itália ou na costa ocidental do que hoje é a Turquia”1. A filosofia tem o seu atestado de nascimento em lugares afastados dos grandes centros urbanos, como Atenas e Esparta. Ela nasce em cidades periféricas como Mileto, Samos, Eléia, Éfeso etc., de onde virão os primeiros filósofos (A filosofia nasce na roça [Risos!]).

Estes filósofos estavam familiarizados com os poemas gregos de Hesíodo (sécs. VIII a. C.) e Homero (séc. IX- VIII a. C.), poetas que viveram nas sociedades arcaicas e tribais. Em certo sentido pode-se dizer, a filosofia grega tem as suas origens na poesia homérica e hesiódica, cujos conteúdos mítico-literários fornecem ao pensamento filosófico certa inspiração para embasar uma articulação conceitual, de modo que, mais tarde nos sécs. VI e V, com advento da filosofia, poder-se-á, em retrocesso-comparativo, falar na existência de uma consciência mítico-filosófica, já presente nestes textos poéticos. Quando a consciência mítica, proveniente da inspiração poético-popular, é abandonada pela consciência filosófico-racional dos primeiros pensadores, desenha-se no horizonte espiritual grego uma passagem: a passagem do mito à filosofia. O que é e qual é a diferença entre a consciência mítica e a consciência filosófico-racional?

Antes de tudo, entendamos que o mito (mythos, em grego significa: palavra-narrativa) é uma espécie de narrativa oral, não escrita, que tem por fim compreender a realidade. Vale dizer, os conteúdos míticos, inscritos nas poesias gregas, vieram de um tempo em que ainda não havia a escrita para o uso popular – séculos IX e VIII. Os poemas míticos eram transmitidos oralmente, em praça pública, pelos aedos ou rapsodos, isto é, os recitadores. Partes dos relatos míticos se “sustentam na crença, na fé em forças superiores que protegem ou ameaçam, recompensam ou castigam”2. Sendo assim, quando os homens buscavam entender a realidade do mundo que os cercam, os fenômenos naturais, eles recorriam aos deuses para essa compreensão do real. Neste aspecto, o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona. É uma linguagem narrativa mágica, escura, desprovida de clareza racional. Não se narra os mitos para discussão, para o conflito e esclarecimento discursivo; narra-se o mito para expressar o que desejamos, rejeitamos e tememos.

Em meio a isso, o conhecimento que o homem tem de si e do mundo, isto é sua consciência, é permeado pela construção mítica, pela relação entre o humano e o divino, entre o natural e o sobrenatural. O que significa dizer que para este tipo de conhecimento o homem, o mundo e as coisas que nele há são resultado da ação sobrenatural dos deuses. Portanto, neste ponto a consciência humana pode ser chamada de mítica, pois compreende o real e forma o conhecimento de si a partir de sua relação com o divino, com o sobrenatural, na medida em que se expressa de forma narrativa, não-argumentada, transmitindo oralmente este tipo de conhecimento e compreensão do real. Com efeito, “a consciência mítica predomina em culturas de tradição oral, quando ainda não há escrita” 2, para ser manipulada por todos os indivíduos da sociedade.

(Excurso histórico-contextual: A escrita, quando remotamente inventada, no Egito e na Grécia micênica liga-se primeiro a religião: era destinada somente aos sacerdotes, aos reis e aos palacianos; possui um caráter mágico – hieróglifo significa, literalmente, “sinal divino”. Com tamanho monopólio, a escrita restrita apenas a elite social, cai em desuso na Grécia séc. XII a. C. E mais: com o advento da invasão dórica, desaparece a escrita junto com a civilização micênica. Resurge com os fenícios no final do séc. IX ou VIII a. C. Em seu ressurgimento, a escrita desliga-se da influência religiosa. Há uma dessacralização da escrita, ou seja, um desligamento do sagrado. Com a escrita, a lei não será mais uma ordem, um limite inquestionável ditado pelo deus, mas sentenças escritas por homens, portanto sujeita a discussões, críticas e revisões. “A escrita gera nova idade mental, porque a postura de quem escreve é diferente daquela de quem apenas fala”. Ela fixa a “palavra para além de quem a proferiu, exige maior rigor e clareza, o que estimula o espírito crítico”. Portanto, a escrita surge, ou resurge, como “possibilidade maior de abstração, de uma reflexão aprimorada que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento” 2).

Sendo assim, no decurso dos tempos após um longo processo de mudanças, isto é a invenção da escrita, o surgimento da moeda, da lei escrita, da pólis (cidade, em grego) e do cidadão político, pode-se falar de consciência filosófico-racional, ou simplesmente, filosofia. É certo que antes da filosofia predominava-se, nas sociedades tribais, a influência dos relatos míticos, mas também é verdade que com o advento da pólis grega se dá um misto de transformações culturais no universo humano. O nascimento da pólis, por volta do sécs. VIII e VII a. C., é “um acontecimento decisivo […], uma verdadeira invenção”; pela cidade grega, “a vida social e as relações entre os homens tomam uma forma nova”3. A originalidade da pólis é que ela estava centrada na agorá (praça pública, em grego), espaço onde se debatiam os assuntos de interesse comum. Neste tempo, surge os Sete Sábios (Drácon, Sólon, Clístenes, etc.), homens dedicados à política, a legislação e a organização das póleis (cidades).

A pólis se fez pela autonomia da palavra (logos, em grego), não mais palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas palavra humana do conflito, da discussão da argumentação2. A palavra torna-se o “instrumento político por excelência” 3. Expressar-se por meio do debate fez nascer a política, ciência que permite ao indivíduo tecer seu destino em praça pública. O hábito da discussão pública, na agorá, estimulava o pensamento racional, argumentativo, mais distanciado das tradições míticas. Instaura-se assim uma nova ordem no universo espiritual, uma nova consciência, isto é, um novo modo de conhecer o mundo, as coisas que nele há e o homem. Nasce então a filosofia marcada pelo uso discursivo da palavra. Palavra humana, palavra argumentada, não-divina, não-mágica. Palavra que busca, que deseja, palavra que ama a sabedoria. Consciência filosófico-racional que ver o mundo não mais como resultado da ação sobrenatural dos deuses, mas como um todo-complexo dotado de certa harmonia, de certa ordem, passível de ser explicada e questionada racionalmente.

Ora, convenhamos que enquanto, nas sociedades arcaicas, heroicas e tribais o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a filosofia problematiza e, portanto, convida a discussão. Com efeito, há, por um lado, uma consciência mítica que não se indaga sobre o mundo; por outro lado, com o aparecimento da pólis, nasce uma forma de reflexão nova, questionadora, discursiva: uma consciência filosófico-racional. No mito a inteligibilidade é dada, na filosofia ela é procurada. Enquanto o mito constrói-se no terreno inquestionável do divino e do sobrenatural, a filosofia questiona, interroga o mundo rejeitando o sobrenatural, “a interferência de agentes divinos na explicação dos fenômenos naturais. Ainda mais: a filosofia busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos; organiza-se em doutrina e surge, portanto, como pensamento abstrato” 2.

1 – Os primeiros filósofos gregos: os Pré-socráticos.

É também neste entretempo que florescem, em algumas colônias gregas, os primeiros filósofos, isto é, os Pré-socráticos (filósofos anteriores a Sócrates). Homens, cujas investigações buscam saber o que está na origem das coisas e do mundo. Eles formularam algumas teorias a partir da observação da natureza e elaboram diversas concepções de cosmologias, isto é, diversos estudos sobre o mundo e o fundamento das coisas. “Os primeiros filósofos ocupam-se principalmente com especulações sobre o mundo ao seu redor. O empenho na investigação cosmológica trouxera à luz uma ampla divergência entre a ciência e o senso comum.4

Muitos destes homens foram, em seu tempo, grandes líderes religiosos. Pode-se dizer que inicialmente a separação entre “ciência, filosofia e religião não é tão clara como ocorrerá em séculos posteriores”1. Sendo assim, as investigações destes pensadores ainda carregam certo teor de religiosidade mítica, mas no geral suas reflexões se diferem em muito da linguagem mítica. Podemos ver esta diferença entre as cosmogonias, de origem poético-mítica (Hesíodo), e as cosmologias provenientes das reflexões racionais dos filósofos pré-socráticos. Enquanto a cosmogonia narra o principio como origem no tempo, as cosmologias dos pré-socráticos buscam a racionalidade constitutiva do cosmos (em grego: universo, [uni-verso], um todo ordenado, um todo arranjado).

Todos eles procuram explicar como, diante da mudança (do devir: vir a ser), podemos encontrar a estabilidade; como diante do múltiplo descobrimos o uno. Ao perguntarem como seria possível emergir o cosmos do caos – ou seja, como da confusão inicial surge o mundo ordenado –, os pré-socráticos buscam o princípio (em grego, arkhé) de todas as coisas, entendido não com aquilo que antecede no tempo, mas como fundamento do ser. Buscar a arkhé é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas2. Muitos dos primeiros filósofos são físicos, fisiólogos, matemáticos, geômetras, astrônomos, líderes religiosos etc., que buscam desvelar o fundamento dos seres presentes na natureza (em grego, physis).

É nesta busca que este primeiros pensadores gregos se questionam sobre o fundamento e a origem de todas as coisas. A filosofia nasce com uma pergunta: o que é o mundo? O que é o princípio das coisas, dos seres? A pergunta que guia as pesquisas dos primeiros filósofos: o que é o princípio dos seres? As respostas dos filósofos à questão do fundamento das coisas, da unidade que pode explicar a multiplicidade, são as mais variadas.

1.1 Tales de Mileto (640-585 a. C.) – Matemático, astrônomo e primeiro filósofo, Tales é “de ascendência fenícia, natural da Jônia, na Ásia Menor, cidade famosa pelo florescente comércio marítimo”5. Aristóteles em sua Metafísica diz que os primeiros filósofos buscavam a natureza dos princípios dos seres e aponta Tales como “o fundador de tal filosofia” 5. Ele foi, com certeza, “o primeiro filósofo a levantar questões sobre a estrutura e natureza do cosmos como um todo” 1.Em resposta a pergunta: o que é o princípio (arkhé) dos seres, Tales dirá: “Não é o homem, mas a água, a realidade de todas as coisas”. “Tudo é água”. Assim, a filosofia grega parece começar com a ideia de que “a água é a origem e matriz de todas as coisas” 5.

1. 2 – Pitágoras de Samos (séc. VI a. C.) – Matemático, geômetra, fundador do pitagorismo (religião ascética, abstinham-se de carne), amante da música e filósofo. “É muito pouco o que conhecemos sobre a vida de Pitágoras” 5. “Tem o direito de ser considerado o pai da geometria enquanto estudo sistemático” 1. Iniciou a estudos da metempsicose, isto é, doutrina da transmigração das almas. Foi o primeiro a denominar o “mundo de cosmos, em homenagem a ordem que nele impera”6. Ao observar a natureza (physis) e o universo (cosmos), Pitágoras entendeu que a partir da “proporção inteligível e harmônica do cosmos” há uma “causa na ação de um ser divino limitador, que ordena segundo o número, a medida, e a harmonia, a matéria ilimitada” 6. Em outros termos, Pitágoras entende que o fundamento de todos os seres é o número. O numero é “a essência de tudo, todo cosmos é harmonia, porque é ordenado pelos números” 2.

1. 3 – Anaximandro (610-547 a. C.) – Este filósofo foi “concidadão, discípulo e sucessor de Tales. Geógrafo, matemático, astrônomo e político. De sua vida, praticamente nada se sabe” 5. Escreveu em prosa uma obra chamada Sobre a Natureza, hoje perdida. É o primeiro escritor-filósofo grego. Também fez “o primeiro mapa do mundo e das estrelas, tendo inventado tanto o relógio de sol como um relógio de estações” 2. Para Anaximandro, o elemento básico de todas as coisas não era apenas a água, como ensinara seu mestre Tales, nem o fogo, como diz Heráclito (ver abaixo), nem o número como queria Pitágoras, mas o ilimitado ou o infinito (em grego, apeíron). Dizia ele: “o infinito (apeíron) é o primeiro principio das coisas que existem: é eterno e sem idade e contém todos os mundos”2. O ilimitado, ou apeíron, “trata-se de uma matéria indefinida, para que dela possam provir constantemente novos seres. É viva, não nasce nem morre” 6.

1. 4 – Anaxímenes (588-524 a. C.) – Filósofo contemporâneo e discípulo de Anaximandro, era mais novo que este, nasceu também em Mileto. Também escreveu em uma obra em prosa, Sobre a Natureza. “Dedicou-se especialmente à meteorologia” 5. Concordava que o elemento último dos seres não poderia ser apenas o fogo, a água e etc., afirmava, porém, que o elemento constitutivo de todas as coisas era o ar. De sua obra em prosa, resta-nos um fragmento que diz: “como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também o ar mantém o cosmos” 5. Ele também considerava que “a rarefação e a condensação podem gerar tudo a partir do ar subjacente” 1. Em outros termos, o ar como fundamento de tudo faz gerar e transformas todas as coisas.

1. 5 – Xenófanes de Colofão (570-528 a. C.) – Este autor foi, em particular, “o primeiro filósofo da religião” 1. Como filósofo-teólogo, foi um crítico profundo “do politeísmo e do antropomorfismo dos deuses” 6.“Foi poeta, sábio e rapsodo, cantando seus poemas através da Grécia” 5. Escreveu em versos, contrapondo-se a escola de Mileto. Detestava a religião presente nos textos de Homero e Hesíodo. Seu ódio contra estes poetas o levou a atacá-los de forma satírica. Confessou que não conhecia a verdade sobre o divino: “a verdade clara sobre os deuses nenhum homem jamais viu, nem nenhum homem jamais virá a conhecer” 1. Mas, mesmo que ninguém tenha jamais visto claramente a Deus, Xenófanes foi capaz de afirmar: “olhando a abóbada celeste, afirmo que o Uno é a Divindade” 6. Neste aspecto, há na base de tudo uma Divindade em tudo superior aos deuses e aos homens: “Um único Deus, entre deuses e homens o maior, em nada no corpo semelhante aos mortais, nem ao pensamento” 5. Pode-se dizer que, numa sociedade politeísta, como era a Grécia antiga, Xenófanes era um firme monoteísta. Só havia um Deus, defendia, por que Deus é a mais poderosa de todas as coisas e, se houvesse mais de um, todos teriam de partilhar o mesmo poder. Deus não é infinito nem finito, não é mutável nem imutável. Mas apesar de Deus ser de certo modo impensável, não é destituído de pensamento. Pelo contrário, ‘À distancia e sem esforço, só com a sua mente, ele governa tudo’”1.

1. 6 – Parmênides de Eleia (c. 544- 450 a. C.) e Heráclito de Éfeso (sécs. VI-V a. C.) – Ambos autores formularam teorias distintas e discordantes. O primeiro filósofo citado, Parmênides, “nasceu em Eleia, hoje Vélia, na Itália. Escreveu um poema filosófico em versos: Sobre a Natureza 5. Este poema compreende um prefácio e duas partes: uma trata da verdade (em grego, aletheia), a segunda trata da opinião (em grego, doxa). Parmênides formula uma teoria sobre o Ser (to òn, em grego) e o não-Ser: sobre o Ser ele diz, “o Ser é” e este pode ser dito e pensado; sobre o não-Ser ele diz ,“o não-Ser não é”, e este não pode ser dito, nem pensado. Que é o Ser e o não-Ser para este autor? O Ser são as coisas que existem e que são objeto de pensamento, de reflexão. São coisas inteligíveis: as ideias, as essências matemáticas, os números etc. O ser é único, imutável, infinito e imóvel. Diz ele: “o mesmo é a pensar e, portanto, ser” 5. Ser e pensar são o mesmo. “Há identidade entre ser e pensar: ao pensar pesamos algo que é e não conseguimos pensar algo que não é” 2. Ao lado do Ser está a verdade, a ciência (episteme, em grego). O não-Ser, por sua vez, é impensável, não pode ser dito nem pensado. Ao lado do não-Ser está a mudança, o movimento das coisas sensíveis, a opinião que muda (doxa, em grego). Não podemos dizer que Ser e não-Ser existem, é impensável e absurdo. Assim, o não-Ser não existe, portanto não pode ser pensado. O movimento existe apenas no mundo sensível, a percepção pelos sentidos é ilusória, porque é baseada na opinião e, por isso mesmo, não é confiável, não é segura. Com isso este filósofo funda a ontologia, isto é, o estudo sobre o ser. (Anotar explicação)!

O segundo filósofo supracitado, Heráclito de Éfeso, também nascido na região jônica, filho de família real, em suas investigações acerca do real considera: o que existe é o movimento (kínesis, em grego) e “tudo o que é fixo é uma ilusão: não nos banhamos duas vezes no mesmo rio” 2. Tudo flui, tudo está sujeito a mudança. Nada do que foi será. Na cosmologia de Heráclito, o fogo desempenha o papel de princípio das coisas. O fogo é instável, o mundo é instável: “O mundo é um fogo sempre ardente: todas as coisas vêm do fogo e vão para o fogo; ‘todas as coisas se podem trocar pelo fogo, como os bens se trocam por ouro e o ouro por bens’”1. Ainda, para este autor, “a guerra/discórdia (polemos, em grego) é mãe de todas as coisas”. Há na guerra um movimento, fogo, discórdia, conflito, contradição, paradoxo. E quanto à nossa existência: “nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos” 5. É a contradição, o paradoxo, a mudança o constante fluir frente à desejada e suposta permanência/fixidez. A mudança, o paradoxo é a verdade. O logos (em grego: a palavra, o pensar, que vem do grego légein: recolher, dizer, razão, linguagem, phronein: pensar) é o que temos de comum. O homem é linguagem e pensamento em harmonia com o cosmos. “Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu logos”5. (Anotar explicação)!

1. 7 – Anaxágoras de Clazômenas (499-428 a. C.) – Mudou-se para Atenas, foi mestre de Péricles. Sócrates foi seu contemporâneo. “Em 431 foi acusado de impiedade por negar a divindade Sol (para ele, uma pedra incandescente) e da Lua (para ele, uma terra)” 5. Foi encarcerado, mas conseguiu fugir. “Sustentava que ‘as sementes’ de todas as coisas foram ordenadas por um princípio inteligente, uma inteligência cósmica (Nous, em grego)” 2. Aristóteles diz que, como princípio, Anaxágoras coloca o Nous, o espírito/intelecto, acima de todas as coisas, “pois é o único dos seres que é simples, puro e sem mistura” 5.

1. 8 – Empédocles de Agrigento (483-430 a. C.) – Natural de uma colônia na Sicilia, Agrigento. Foi um político ativo, um democrata ardente. Foi banido, praticou a filosofia no exílio. “Na política opôs-se a oligarquia, defendendo a democracia. Sua doutrina pode ser vista como uma síntese filosófica. Substitui a busca dos filósofos jônicos de um único principio para os quatro princípios elementares: fogo, terra, água e ar; combina ao mesmo tempo o Ser imóvel de Parmênides e o ser em perpétua transformação de Heráclito, salvando ainda a unidade e a pluralidade dos seres particulares” 5. “O entrelaçamento e a mistura dos elementos, no sistema de Empédocles, é causado por duas forças: Amor e Discórdia”1. Ele viu nos quatro elementos “as raízes das coisas, e no amor e no ódio [discórdia] as forças de união e separação” 6. “O Amor combina os elementos, fazendo surgir uma coisa de muitas coisas, e a Discórdia obriga-as a separarem-se, fazendo surgir muitas coisas a partir de uma. A história é um ciclo no qual é por vezes dominante o Amor, outras a Discórdia”1.

1. 9 – Leucipo (séc. V a. C.) e Demócrito (c.460 –c.370 a. C.) – Ambos são atomistas. Quer dizer, o primeiro criou a teoria dos átomos. É o primeiro químico-físico da antiguidade e o fundador do célebre sistema atomístico. Demócrito nascido em Abdera (colônia jônica da Trácia) desenvolveu a teoria de Leucipo. Ambos consideravam o átomo (em grego, atomon) como o elemento primordial, por ser ele constituído de partículas indivisíveis. Como para eles também a alma era formada por átomos, estamos diante de uma concepção materialista e determinista2. Demócrito escreveu muito em forma de aforismos, sobre o átomo diz: “Por convenção existem o doce e o amargo, o quente e o frio, por convenção existe a cor; na realidade, átomos e vazio”1.

BIBLIOGRAFIA

1. KENNY, Anthony. História Concisa da Filosofia Ocidental. Trad. Desidério Murcho (et al). Lisboa: Temas e Debates, 1999. 500 p.

2. ARANHA, Maria L. de Arruda; MARTINS, Maria H. Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 4 ed. São Paulo: Moderna, 2009. 479 p.

3. VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. Isis Borges. Rio de Janeiro: Difel, 2002. 143 p.

4. BURNET, Jonh. A aurora da filosofia grega. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio, 2006. 383 p.

5. OS PENSADORES. Pré-socráticos. Trad. José Cavalcante (et. al). São Paulo: Abril Cultural, 1973. 376 p.

6. DILTHEY, Wilhelm. História da filosofia. Trad. Silveira Mello. São Paulo: Hemus, 2004. 216 p. 

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Um comentário sobre “Origens da Filosofia Ocidental. Filosofia pré-socrática.

  1. DEUS EXISTE. A CIMA DE QUALQUER COISA E SE TEM DUVIDA VENHA NA CONGREGACAO CRISTA NO BRASIL E SUAS DUVIDAS SERAO TIRADAS COM FE EM DEUS.

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