A senda do saber filosófico: a vida em perdas e ganhos¹.

Como se sabe, a partir de hoje damos início a nossa jornada de aulas. Digo que será uma jornada pelo pensamento filosófico; uma vez que todos pensamos, não será tão difícil fazermos este percurso. Um filósofo grego chamado Heráclito (c. 540, Éfeso – 470 a. C) diz que “comum a todos é o pensar”. Se todos nós pensamos, juntos faremos esta jornada. Mas ainda digo: o que aqui entendo por jornada não está necessariamente preso ao seu sentido semântico, isto é, um “caminho que se faz num dia”3 . Diferente deste significado, ou talvez inspirado nele, a jornada que hoje empreendemos na senda do saber filosófico, não será apenas um caminho percorrido num dia, mas será uma longa estrada a ser trilhada por toda a vida. Que seja verdadeiro, o fato de pensar que este percurso deva ser feito dia após dia em nossa existência, mas também é verdade que ele não se esgota na caminhada de apenas um dia. A filosofia é um longo caminho entre os minutos de ignorância e os instantes de sabedoria. Não dá para conter sua imensa riqueza num breve percurso diário, nem muito menos, abarcar todo saber filosófico em apenas 50 minutos de aula, ou até mesmo nos três anos de Ensino Médio regular, ou ainda, no caso da EJA, em um ano e seis meses. A filosofia não se reduz ao espaço e ao tempo; transcende ambos.

Me expresso deste modo, porque quero deixar de sobreaviso aos circunstantes que, nestas aulas, não aprenderemos filosofia. Ninguém aqui caia na besteira de pensar que aprenderá filosofia. Porque filosofia não se aprende nem se apreende. Primeiro não se aprende porque ela não é uma disciplina, nem uma ciência particular; ela é a mãe de todas as ciências; ela se interroga e interroga todos os campos do saber. É uma reflexão crítica sobre os seus próprios saberes e os saberes dos outros. Do mesmo modo, também não se apreende a filosofia porque ela não é mercadoria ilegal, nem muito menos um objeto ou uma coisa passível de manipulação. Digo mais: filosofia não é droga, nem muito menos armas, ou dinheiro. Mas ela pode se tornar uma droga (no sentido de frustração), se estudada de modo cínico (dissimulado) e leviano (irresponsável). Da mesma forma, o fato de ela não ser arma não significa que ela não possa ser usada como uma arma (no sentido figurado). Ela pode ser uma arma contra a insensatez e a tolice. E mais: mesmo que ela não seja dinheiro, pode, ao menos, nos ensinar a ganhar e a gerenciar o nosso dinheiro.

Agora, vocês devem estar pensando: esse professor é doido, se a aula é de filosofia, então como não aprenderemos filosofia? Daí eu respondo: de doido eu só tenho a cara, mesmo que a aula seja de filosofia, repito: não aprenderemos filosofia! É o que já dizia Immanuel Kant (Alemanha 1724-1804): não se aprende a filosofia, só se aprende a filosofar. Neste sentido, pode-se perguntar: Como? E o que é o filosofar? Então, ainda pode-se responder: filosofar é pensar de modo crítico, livre e independente. Agora como fazemos isso, é simples, mas não é tão fácil, pois filosofar é também refletir sobre si mesmo, isto é, pensar “por conta própria”4, como diz André Comte-Sponville ( um filósofo francês contemporâneo). Neste aspecto, pensar por conta própria não é tão fácil quanto parece à primeira vista, porque se exige, antes de tudo, disposição para desprender-se de nossos caducos preconceitos, bem como disposição para questionar nossas ideias préformadas. Para tanto, exige-se humildade e ainda, às vezes, reconhecer a ignorância de si mesmo, isto é, o desconhecimento de si. Filosofar também é admitir que temos falhado conosco, com os outros e com o mundo. Nem todos estão aptos a reconhecer os próprios erros. Questionar os erros dos outros pode até ser fácil e, às vezes, é até divertido, porém questionar a si próprio, não é tarefa fácil. Exige-se lucidez, humildade e, como se diz, senso de “se mancol” (aquele sentimento de que, às vezes, podemos está sendo inconvenientes e inoportunos).

É questionando-se sobre o nosso próprio pensamento, “sobre o pensamento dos outros, sobre o mundo, sobre a sociedade, sobre o que a experiência nos ensina, sobre o que ela nos deixa ignorar” 4 que trilhamos a estrada do filosofar. Todavia, mesmo que seja certo afirmar que “filosofar é pensar por conta própria”, também é correto dizer que só se consegue pensar de modo válido inspirando-se primeiro no pensamento de outros, “em especial dos grandes filósofos do passado” 4.

Desta maneira, no percurso do filosofar, encontramos as obras deste ou daquele filósofo profissional, de modo que, “pensaremos melhor, mais intensamente, mais profundamente”. Neste sentido, “iremos mais longe e mais depressa” 4. Porém, ao encontrarmos estes filósofos, não podemos considerá-lo, acrescentava Kant, “‘modelo de juízo, mas simplesmente uma ocasião de se fazer um juízo sobre ele, até mesmo contra ele’. Ninguém pode filosofar em nosso lugar” 4. Claro que “a filosofia tem seus especialistas, seus profissionais, seus professores. Mas ela não é uma especialidade, nem uma profissão, nem uma disciplina universitária: ela é uma dimensão constitutiva da existência humana” 4.

Neste aspecto, ainda consideremos que para percorrer a sinuosa via do saber filosófico será necessário que disponhamos não só de um tempo de nosso dia, mas antes, precisaremos dispor de nossas vidas e empenho. Porque estudar filosofia é trilhar um caminho cheio de vida; é lidar com a dimensão constitutiva de nossa própria existência; é aprender a pensar reflexivamente, porque, como disse Sócrates (c. 470. Alópece, Ática-399 a. C.): “uma vida sem reflexão, não é digna de ser vivida”5. Quer dizer, devemos pensar para bem viver. A filosofia, enquanto propiciadora de uma postura crítica e reflexionante, assume o papel de nos ensinar a pensar bem, para vivermos bem.

Com efeito, estudar filosofia é aprender a pensar para lidar com nossa própria vida, pois breve é o tempo que dispensamos para vivermos a vida. Se breve é o tempo que temos para viver, então devemos empregar o máximo de nossas forças para desfrutá-lo de modo digno. Entender isso, pode até parecer simples, mas não é, de modo algum, tão fácil quanto parece. Dizer isto, pode até soar óbvio, mas não é, de modo algum, tão trivial quanto parece. Pois poucos percebem que, em nossa viagem pela terra, perdemos muito tempo não vivendo a vida de modo digno. Gastamos muito tempo com mediocridades; esquecemos-nos de viver a vida. É neste sentido, que a sabedoria da voz literária de Sêneca se faz ouvir (c.4 a. C., Córdoba, Espanha- 65 d. C.); quando ele escreve: “Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos” 6.

Em nossa viagem terrena a filosofia quer nos ensinar a aproveitar o tempo que temos, a fim de que vivamos de modo digno e mais humano, pois não nascemos humanos; tornamos- nos. A viagem em busca do humano em nós não é feita apenas pela terra que suporta os nossos pés, mas pelo solo que caracteriza a nossa existência, isto é, o nosso espírito, a nossa alma e o nosso corpo. Mas como explorar esta terra chamada “nós mesmos” se não temos um mapa que nos indique o caminho? Neste sentido, a filosofia é o nosso mapa, nosso caminho.

Se assim é, ainda consideremos ser relevante reconhecermos o fato de que o caminho do saber filosófico, como qualquer outro caminho, não está livre de armadilhas, escorregões, tropeços e quedas. Todavia, não se assustem, mesmo com tamanhos percalços, este caminho não é impossível de ser trilhado. Nele não há só escuros obstáculos, também há luminosos triunfos. Não há só algumas perdas, também há muitos ganhos. É verdade que, às vezes, poderá parecer que há mais perdas do que ganhos, porém, tenhamos fé, esperança e paciência, pois veremos que estas aparentes e possíveis perdas serão necessárias, visto que assim como a vida nos dar perdas e ganhos, também percorrer a senda do saber filósofico, nos trará perdas e ganhos. Uma vez que, quando se estuda filosofia, reconhecemos que não temos a garantia de que vamos aprendê-la, assim, por um lado, já começamos perdendo, isto é, perdendo a ilusão de que, porventura, pelo fato de estudarmos, tivéssemos alguma possibilidade de aprender o que não se pode aprender. É neste ponto que perdemos, em nome de nossa saúde intelectual e emocional, ao passo que não nutrimos falsas expectativas em busca de coisas inalcançáveis; assim, perdemos a oportunidade de não sofrermos tanto esperando por algo inalcançável.

Por outro lado, mesmo perdendo, ganhamos ao menos a clara convicção de que estudar a filosofia não é se descolar da realidade nua e crua de nossa vida, mas sobre ela refletir a fim de vivê-la com mais lucidez e sabedoria; a fim de vivermos com os pés no chão. Estudar a filosofia não é só pensar, mas refletir e agir sobre o mundo. O nosso mundo e o dos outros. Filosofar é pensar para o mundo transformar!

Por esta ótica, afigura-se muito claro que na estrada do saber filosófico há alguns desencontros, mas também há muitos encontros. Há muitos pontos de partida, alguns de chegada, mas estes não são o fim do saber filosofal. Talvez, este saber, só tenha fim, quando morremos. Digo: um fim relativo aos que morrem, é claro. Mas, mesmo assim, os que ficam vivos continuam a percorrer o caminho da filosofia. Porque este caminho, assim como o homem, é inacabado!

Diga-se de passagem, na estrada do saber filosófico, às vezes, os encontros poderão ser com nós mesmos, ou não; os desencontros poderão ser com os filósofos e seus pensamentos, ou não.  Mesmo assim, ainda devo avisá-los que, por vezes, em certa dimensão, estes desencontros serão menos com os filósofos e seus pensamentos do que com nós mesmos. Ao mesmo tempo, noutra dimensão, também é certo que os encontros, por sua vez, poderão ser mais com nós mesmos do que com os filósofos e seus pensamentos. É a ambiguidade da jornada.

Segundo penso, não há sentido em estudar filosofia se não partirmos de nossas vidas, de nossas questões cotidianas e irmos ao encontro dos filósofos e seus pensamentos. Estudar filosofia apenas na biblioteca, ou na sala de aula, sem refletirmos os problemas do dia a dia, é completamente inútil à existência humana. Lembremos que não somos traças, nem ratos de bibliotecas, ou mesmo aranhas que fazem suas teias no teto da sala de aula, à parte da luta diária que se trava na civilização humana. Somos seres humanos e mundanos, isto é, somos seres habitantes deste mundo. Somos terráqueos, terrosos, animais nus e racionais. O que significa que a nossa humanidade só existe enquanto tal, na medida em que estamos conectados com nossa mundaneidade. Vale dizer, somos entes de relações e não só de contatos. Não estamos “apenas no mundo, mas com o mundo”7. E neste mundo travamos nossas relações. Quer seja com as coisas; quer seja com as pessoas.

Convenhamos também que, nas idas e vindas, pela vereda do saber filosófico, talvez, possamos – como disse antes – nos encontrar e nos desencontrar, ou até mesmo, nos perder. Mas creio que com a filosofia nos acharemos na sabedoria. De modo que entenderemos estas ambiguidades, paradoxos e aparentes contradições, pois nelas, talvez, esteja a graça de caminhar na via do saber filosófico.

Em meio a estes vesuviais (idas e vindas) filosóficos, talvez possa parecer ainda que os desencontros sejam perdas e os encontros sejam ganhos, porém, paradoxalmente, também será possível que os encontros sejam as perdas e que os desencontros sejam os ganhos. Não há garantias de que sempre ganharemos, bem como não há garantias de que sempre perderemos. Talvez, a única garantia que temos seja reconhecer, de antemão, que a senda da filosofia – cheia de crises, frustrações, paixões, paradoxos, percalços e surpresas – não nos ofereça outra coisa, senão um amigável, despretensioso e sorridente convite para perlustrá-la (trilhá-la). É aqui que a jornada pode se tornar uma curiosa aventura para a nossa inteligência, ou ainda, uma entusiasmante exploração investigativa no universo do conhecimento. Exploração esta, a ser empreendida por nosso espírito.

Se for assim, veremos que perlustrar a via do saber filosófico será, para nós, não apenas uma aventura, mas ainda um exercício. Um exercício, talvez cansativo e chato, porém será com ele que fortaleceremos a nossa razão e descobriremos a alegria de viver com sabedoria e saúde espiritual. Perderemos suor, nos cansaremos, é verdade, mas ganharemos musculatura e vigor intelectual. É aqui, que me uno a Comte-Sponville e insisto em dizer: “a filosofia não é apenas uma aventura; também é um trabalho, que requer esforços, leituras, ferramentas. Os primeiros passos costumam ser rebarbativos, e já desanimaram mais de um” 4. Por isso, talvez nos irritemos, nos cansemos e nos impacientemos devido ao trabalho rebarbativo (repelente por ser desagradável)3 que será, para alguns, o exercício de pensar filosoficamente. Mas é por este exercício, por este trabalho, aparentemente desagradável, que seremos embelezados e enrobustecidos com a graça do entendimento. É aqui que as palavras de Ludwig Wittgenstein se faz ouvir: “o trabalho na filosofia é […] um trabalho sobre nós mesmos. Sobre a nossa própria concepção. Sobre o modo como vemos as coisas. (E o que delas exigimos)”8.

Ora, trabalhar nosso pensamento a partir da filosofia nos dará a oportunidade de pensar de modo mais lúcido, legítimo e crítico. Exercitar nosso pensamento com a filosofia nos dará ainda a oportunidade de abandonar a obesidade do sedentarismo intelectual e abraçar  a esbeltez da sabedoria filosófica. Alcançar estes bens é possível, desde que nos permitamos, pouco a pouco, deixar cair de nossos olhos as escamas da imbecilidade, da impulsividade, da precipitação, da tagarelice, da tolice, dos achismos e dos conformismos. Males estes, que sempre nos fazem pensar fundados em ideologias, ilusões, conhecimentos baratos, panfletários e midiatizados, embaçando assim nossa visão de mundo com preconceitos grosseiros. Preconceitos estes, que monstrificam nossa anatomia intelectual, tornando-nos alienados, frustrados, lentos, mal-resolvidos, negligentes, preguiçosos e relapsos, no que concerne à resolução das questões mais básicas de nossa existência humana. Viver de acordo com o que dita os monstrificantes preconceitos, não nos causa outra coisa, senão a alienação, a barbárie e o emburrecimento de nossas mentes.

É para prevenir e evitar estes e outros males, que a caminhada pela senda do saber filosófico nos ajuda a ganhar, pouco a pouco, um olhar crítico sobre nós mesmos, os outros e o mundo que nos cerca. Assim, se nos permitirmos, com a filosofia, alcançaremos certo saber, certa cultura pessoal, certa vitalidade mental e certa reflexividade. Com efeito, aprenderemos a pensar melhor, para viver melhor. Se quisermos, veremos que exercitar a mente com a filosofia nos ajudará a ganhar mais qualidade de vida anímica (vida da alma). Se perseverarmos neste exercício, alcançaremos sabedoria, isto é, uma vida lúcida e feliz.

Ora, não há nada mais justo, nesta vida, do que o querer ser feliz. Ninguém discorda que todos nós, uns mais, outros menos, desejamos ser felizes. Talvez, porque a felicidade dá sentido a nossa existência. Entretanto, mesmo assim, algumas pessoas podem até argumentar dizendo que a filosofia não se liga à felicidade e, portanto, não há sentido em estudá-la. Neste ponto, com Santo Agostinho (354, Tagaste, África-430 d. C), sou levado a discordar deste argumento, pois este filósofo diz o seguinte: “não há nenhum sentido para o ser humano fazer (estudar) filosofia, exceto para ser feliz”9. Tudo bem, até concordo – e não há dúvidas – de que estudar filosofia pelo mero ato de estudar não gera outra coisa, senão cansaço e fadiga. Ou melhor, filosofar sem ter em vista a felicidade, gera ausência de sentido à vida. O sentido último da vida não pode ser reduzido aos estudos (ou, a qualquer outra coisa parecida), mas à felicidade. O estudo da filosofia pode ser um caminho em busca da felicidade, mas nunca será o fim desta busca. O filosofar é um trabalho que busca descanso numa vida feliz, isto é, na beatitude (na felicidade) – como diria Santo Agostinho. Talvez, seja correto dizer que, durante a vida, até podemos encontrar certa felicidade fora do estudo da filosofia, mas também é correto afirmar que a verdadeira vida feliz está ligada ao exercício da filosofia.  Como dizia Epicuro (341, Atenas- 270 a. C.): “A filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona a vida feliz”4. Em outras palavras, a filosofia é um exercício amoroso-sapiente e racional-desejante em busca da vida feliz. Entenderam?

Explico-lhes:

1)    Primeiro, a filosofia é um exercício amoroso-sapiente porque, antes de qualquer coisa, ela, enquanto tal, significa “amor à sabedoria”(Veja-se a origem do termo em grego antigo: Gr.  ϕιλοσoϕία – philosophía, isto é, amor à sabedoria ou a busca desejante por sabedoria. Este vocábulo, na língua grega, é a união de dois termos: Gr. ϕιλία – philia e Gr. σoϕία –  sophia. O primeiro termo significa “amizade ou amor”, o segundo “sabedoria”. Daí ser corrente, na tradição filosófica, que a palavra filosofia signifique “amor à sabedoria”)10. Se a filosofia é, originalmente falando, amor a sabedoria, que vem a ser o filósofo? Aqui fica pressuposto que o filósofo não é outra coisa, senão o amigo da sabedoria.  Por vezes, esta sabedoria é teórica, contemplativa (sophia), mas também é prática (phronesis)4, isto é, possível de ser vivida e experimentada. Porque para viver, não é preciso apenas teorizar, mas saber pensar bem, para viver bem. É neste sentido que a filosofia, como amor à sabedoria, oferece-nos a instrução, o saber, para vivermos bem, em uma palavra, o saber para vivermos felizes.

2)    Segundo, a filosofia é um exercício racional-desejante, porque nós homens somos seres de razão e desejo, ou como disse o filósofo Aristóteles (384, Estagira, Macedônia- 332 a. C.), “todos os homens, por natureza, desejam saber” (Metafísica, I (alpha) 980 a 20.)11. Quer dizer, o homem é um animal racional, isto é, um ser dotado de razão, com um corpo biológico cheio de desejos, mas também um ser falante. Diga-se, o homem é um animal filosofante, pois deseja conhecer, saber. O homem é constituído de vida orgânica, desejo, linguagem e racionalidade. Ele é naturalmente inclinado a saber das coisas. Ou melhor, o homem enquanto tal deseja saber. Ele é um ser curioso por excelência! É um ser sedento de conhecimento! E para obter o que ele deseja, usa tudo o que tem, não só o seu corpo, mas principalmente a sua razão e linguagem.

Neste ponto, notemos o seguinte pressuposto: se a filosofia existe para nos ensinar a viver, então quer dizer que não sabemos viver? É evidente! Pois ninguém nasceu sábio. É por não nascermos, nem sermos sábios, que precisamos filosofar. Ou, como ainda diria Comte-Sponville, nesta vida “a sabedoria é a meta; a filosofia o caminho” 4.

Contudo, consideremos ainda que até esta altura da minha fala e escrita, vocês podem está se perguntando: o que fazer para obter tudo isso, professor? Então, eu vos respondo: para obtermos todos estes ganhos na vida, e mais alguns que não citei, serão necessárias algumas perdas. Daí vocês podem se perguntar: algumas perdas? Digo-lhes: sim! Perdas! Esta é aula da perda! Pois, como eu disse, a nossa vida não é feita só de ganhos, mas principalmente de perdas! Já nascemos perdendo!

Ouvindo e lendo estas palavras, vocês podem pensar: como assim, já nascemos perdendo professor? Explico-lhes: quando nascemos, perdemos o conforto do ventre materno. Mas, lembremos que ainda aí nesta nascente experiência de vida não houve só perdas, também ganhamos a oportunidade de experimentar a dádiva que é viver neste mundo. Eis aí uma perda e um ganho. Estamos entendidos?

Por conseguinte, se alguém perguntar a vocês que aula eu ministro, que aula eu dou, podem dizer: o professor ministra Aula de Perda. Toda vez que ministra a aula, ele nos ensina a perder! Então se eu perguntar agora a vocês como se chama essa aula, o que vocês dirão? Quero ouvir!? Vamos lá, em uma só voz, falem: ESTA É A AULA DA PERDA!! (Risos)

Sendo assim, nesta aula, para vocês ganharem, primeiro terão que perder. Agora vocês devem estar se perguntando: perder o quê professor? Alguns de vocês podem ficar tranquilos, pois não estou falando de perder a virgindade, nem muito menos de perder tempo. (Risos)

A perda da qual lhes falo refere-se ao seguinte: a) perda da preguiça de estudar, da preguiça de ler e escrever; b) perda da falta de respeito consigo próprio, com seus estudos e com o seu futuro; c) perda da falta de respeito para com os colegas e para com o professor; d) perda da desatenção; e) perda da negligência e da falta de responsabilidade com os afazeres escolares; f) e, por fim, perda da falta de compromisso, honestidade e amor próprios.

Neste sentido, ainda digo-lhes que tudo isso é porque penso que estudar filosofia, como estudar qualquer outra matéria escolar, requer, antes de tudo, disposição, esforço, leituras, meditações, ou seja, requer compromisso, empenho, responsabilidade, seriedade e trabalho. Trabalho este, que não é apenas individual, mas coletivo. Ao dizer isso, sinceramente eu espero que em nossa jornada filosófica eu não me encontre, dia após dia, trabalhando e caminhando sozinho. Desejo trabalhar junto com todos vocês! Estamos entendidos?!

Por que digo e escrevo isso? Porque eu espero mesmo que vocês disponham de vossos corpos e mentes para o aprendizado e que, sobretudo, entendam que estamos aqui para aprendermos juntos. A aula não é só do professor, mas de todos nós. Desta maneria, trabalhemos para que esta aula não se torne um monólogo, no qual apenas um indivíduo fala, mas que ela seja, cada vez mais, um diálogo, numa palavra, uma conversa, despretensiosa e coletiva.

É importante que todos vocês, caros alunos, participem desta aula. Quer ouvindo, ou refletindo; quer perguntando, ou respondendo. Sobretudo, espero que seja mais ouvindo, refletindo e perguntando, do que respondendo. Pois, antes de qualquer coisa, a filosofia requer mais ouvidos, reflexão e perguntas do que respostas imediatas, impulsivas,  irrefletidas e precipitadas. Contudo, se nesta caminhada aparecerem dúvidas e dificuldades, talvez juntos possamos superá-las. Se mesmo assim, ainda surgirem obstáculos (doença, desmotivação, preguiça, sono, etc.), talvez juntos possamos transpô-los.

Em minhas andanças pela vida, já ouvir dizer: todos nós, seres humanos, sabemos alguma coisa. Se assim é, o aprendizado pode ser construído por todos nós, pois todos têm seus saberes, os quais podemos, ou não, ensinar aos outros. Entretanto, mesmo que cada um saiba alguma coisa, ninguém sabe de modo absoluto, pois somente Deus – claro, se Ele existir– é que sabe de modo absoluto. Ao dizer isso, pensamos: se não existem homens que sabem de maneira absoluta, também não existem homens que sejam ignorantes de maneira absoluta12. Se for verdade que todos nós sabemos alguma coisa, com efeito, “é impossível que alguém saiba tudo, como também é impossível que alguém não saiba nada”13; isto, que eu acabo de dizer, aprendi com um professor que tive um dia. Portanto, caminhemos juntos nesta jornada, aprendendo uns com os outros, talvez assim construamos um maior aprendizado filosófico.

Avante unidos, perlustremos a senda do saber filosófico, de modo que vivamos a vida em perdas e ganhos!

___________________________

1. Texto parcialmente proferido na ocasião do primeiro dia de aula nas salas de Ensino Médio da Rede Estadual de Ensino, em cidade de São Paulo.

2. HERÁCLITO. Sobre a Natureza. Trad. José Cavalcante. In. Os Pré-Socráticos. (Col. Os pensadores). São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 85-142, (Fr.113).

3. MiniAurélio Século XXI Escolar. 5 ed. Rio de Janeiro: Nova  Fronteira, 2001.

4. COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da filosofia. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 165 p.

5. PLATÃO. Críton. Trad. José Cavalcante. São Paulo: Nova Cultural, 1995. p.116-190.

6. SÊNECA. Sobre a brevidade da vida. Trad. William Li. São Paulo: Nova Alexandria.

7. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 22ª reimpressão. Rio De Janeiro: Paz e Terra, 1994. 158 p.

8. WITTGENSTEIN, Ludwig. Filosofia. Trad. António Zilhão. In: Manuscrito. Vol. XVIII. Nº 2. São Paulo: Unicamp, 1995. p. 6.

9. SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus: contra os pagãos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.

10. COBRY, Ivan. Vocabulário grego de filosofia. Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: Martins fontes, 2007. 164 p.

11. ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2002.

12.FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 5ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. 79 p.

13. Cito aqui um fragmento da primeira aula da disciplina Lógica Aristotélica, ministrada por meu caro e inesquecível professor Dr. Pedro Monticelli, na turma do 2º semestre de 2009, do Curso de Filosofia do Centro Universitário São Camilo (CUSC).

Anúncios

2 comentários sobre “A senda do saber filosófico: a vida em perdas e ganhos¹.

  1. Prezado, amigo e irmão filosófico.
    Meus sinceros parabéns por este blog, e, em especial pela aula que acabo de ler, simples, bela, e realmente filosófica. Que todos nós como professores possamos realizar aulas tão bonitas, e, sobretudo instigantes ao pensamento como esta que apresentastes. Um abraço afetuoso.
    Carlos Eduardo Bernardo (Projeto Phronesis / Philothanatos)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s